segunda-feira, 2 de março de 2026

PSB e PT ampliam divergências com ruídos na vice-presidência e em PE, e João Campos atribui fogo amigo a Rui Costa

Dirigentes afirmam que eventual revés em Pernambuco pode levar à revisão de alianças pelo país, como na Bahia

Por Victoria Azevedo — Brasília

Rui Costa, Alckmin, João Campos e Lula em lançamento do Novo PAC — Foto: Ricardo Stuckert/27-9-2023

Principais integrantes da aliança que elegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, PT e PSB acumulam atritos na pré-campanha diante da tentativa do Palácio do Planalto de ampliar o palanque na corrida pela reeleição. O partido do vice Geraldo Alckmin elegeu como prioridades a manutenção dele no posto e a eleição em Pernambuco, e se queixa de “deslealdade” de governistas nas duas frentes. Há ruídos também na construção de candidaturas em outros estados.

Presidente do PSB, o prefeito do Recife, João Campos, pré-candidato ao governo do estado, tem criticado a aliados e a integrantes do Executivo federal a atuação do ministro da Casa Civil, Rui Costa, na articulação do palanque de Lula em Pernambuco. Na avaliação de Campos, o auxiliar presidencial trabalha para que o petista fique neutro na disputa local, dividindo-se em dois palanques: o dele e o da governadora Raquel Lyra (PSD), que buscará a reeleição.

'Comportamento dúbio'

De acordo com relatos de políticos dos dois partidos que acompanham as conversas, o prefeito critica o que classifica como um comportamento dúbio do Planalto, já que ele e o PSB são aliados de primeira hora do petista. As queixas já chegaram a integrantes do primeiro escalão, como a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), ao presidente do PT, Edinho Silva, e a parlamentares da base, caso do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).

Integrantes do PT afirmam que o cenário de palanque duplo não é o ideal e ponderam que em Pernambuco é preciso buscar uma construção que não desagrade nenhum lado, já que há pontos positivos em dois apoios de peso num estado. Eles reconhecem, no entanto, que o tensionamento preocupa, sobretudo diante da avaliação que a eleição deste ano será acirrada. Um integrante da cúpula da sigla afirma que caberá a Lula conversar com os políticos para buscar o que classifica como um ponto de equilíbrio na situação.

Outro aliado do presidente da República diz que o petista tem dado sinalizações de que não deverá se envolver diretamente na disputa neste momento, já que avalia ser necessário ter todos os apoios possíveis para enfrentar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). No início do mês, em evento na Bahia do aniversário do PT, por exemplo, Lula afirmou que o partido não está “com a bola toda” para prescindir de acordos políticos nos estados.

No carnaval, o presidente viajou ao Recife e acompanhou o tradicional bloco Galo da Madrugada ao lado da governadora e do prefeito. Outro político que acompanha as negociações no estado diz que o chefe do Executivo deverá tentar ganhar tempo, sem se comprometer neste momento a declarar apoios, mas reconhece que o natural seria o PT estar com Campos, já que está na base aliada do prefeito.

Hoje, ele é o favorito na disputa. Pesquisa Datafolha divulgada em fevereiro, no entanto, mostrou uma redução da diferença entre o prefeito e a governadora. Ele marcou 47% das intenções de voto, enquanto ela teve 35% — o levantamento anterior, em outubro, mostrava o prefeito liderando por 52% a 30%.

Os dois se reuniram separadamente com Lula em Brasília nas últimas semanas. Interlocutores de Lyra relatam que ela pediu ao presidente que não tome nenhuma decisão neste momento e afirmam que ela está disposta a apoiá-lo, caso haja acordo. Já aliados de Campos dizem que ele saiu confiante e aposta em palanque exclusivo.

Procurados, Costa, Lyra, Edinho Silva e Wagner não responderam. Gleisi afirmou via assessoria que não tem conhecimento das reclamações do PSB. João Campos disse que a aliança entre PT e PSB tem sido “majoritariamente ou totalmente harmônica” e disse que a relação com Lula é “sólida e não é de conveniência eleitoral”.

— O PSB não cogita a possibilidade de palanque duplo em Pernambuco. Não vamos fazer jogo de barganha, toma lá, dá cá. A nossa relação política é verdadeira. O PSB foi o maior partido a apoiar o presidente em 2022 e seguimos na linha de frente, declarando apoio à reeleição. Não acredito que o ministro da Casa Civil trabalhe contra aliados de primeira hora. Então, não gasto energia pensando nisso — afirmou ao GLOBO.

Outros atritos

O desconforto no PSB extrapola o estado. Dirigentes afirmam que eventual revés em Pernambuco pode levar à revisão de alianças pelo país, como na Bahia, onde integrantes do partido mantêm boa relação com ACM Neto (União Brasil), adversário do governador Jerônimo Rodrigues (PT), cuja chapa deve ter Jaques Wagner e Rui Costa como candidatos ao Senado. Essa possibilidade ganha força num momento em que é discutida a possível filiação do deputado Leo Prates (PDT-BA), aliado de Neto, ao PSB.

Petistas dizem ser remota a chance de o partido romper com o PT na Bahia, já que isso teria consequências. Eles avaliam que é um erro a sigla fazer ameaças desse tipo.

Já no Pará, o PSB lançará o prefeito de Ananindeua, Dr. Daniel Santos, contra Hana Ghassan (MDB), vice-governadora apoiada por Helder Barbalho (MDB), aliado de Lula, e que deve ter também o apoio do PT na disputa.

Em São Paulo, por sua vez, o PT trabalha com o ministro Fernando Haddad (Fazenda) como plano A para disputar o Palácio dos Bandeirantes contra Tarcísio de Freitas (Republicanos), enquanto o PSB conta com o nome do ministro Márcio França (Empreendedorismo). Além deles, são lembradas as ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Simone Tebet (Planejamento) para compor a chapa. Tebet deverá mudar o domicílio eleitoral para São Paulo e tem convite do PSB para se filiar à legenda. João Campos minimiza essa possível divergência e diz que ouviu de Lula que o PSB deverá ter protagonismo nesse palanque.

Integrantes do PSB destacam um tensionamento com a hipótese de substituição de Alckmin na vice. Aliados de Lula defendem oferecer a vaga ao MDB. Líder do partido na Câmara, Jonas Donizette (SP), afirma que “nem um vice desleal mereceria ser tratado dessa forma”.

— Quanto mais um vice leal e competente como Alckmin. Acho um desrespeito com a figura dele o que o PT está fazendo — disse.

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