sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

As Lágrimas do Velho Moço

Não era a primeira vez que eu o via. Sempre que íamos tocar naquele café ele estava lá. Dançava sozinho animadamente e fazia todos rirem com a sua alegria quase pura. Um dia, segredou-me baixinho, da sua solidão. Disse-me que quando ele chegava a casa, só as paredes o esperavam, pois a esposa fazia uns três anos, havia falecido. A alegria daqueles poucos momentos que passava ali dançando e brincando, dava lugar a uma grande e triste dor.
       Fiquei com dó daquele homem simples, que me parecia não ter mais ninguém na vida que o cuidasse, mas que fazer diante da crueza da vida? A conformação com a dor será natural? Ou o certo é rebelar-se contra, para não sofrer? Vai saber o que fazer quando o sofrimento corta a nossa própria pele e faz sangrar o nosso coração... Nada do que se diga surte algum efeito, sem que para isso tenhamos que arrancar de nós, a carcaça dura que carregamos a esconder os nossos sentimentos maiores. Limitei-me a balbuciar um: - Sinto muito, tentando esconder os olhos cheios d’água prestes a escorrer-me pelo rosto. Ele sempre respondia com aquele sorriso de quem aceitava a vida que teimava em tratar-lhe mal. Era um homem resignado com o pouco que tem.
       Era um Domingo de sol forte e lá fomos nós, ao mesmo café de um amigo, tocar e fazer as pessoas dançarem um pouco. Lá estava ele. Risonho e sozinho. Cumprimentou-nos com aquele sorriso quase inocente, o que me dava, novamente, a sensação de que ele precisava de atenção. Brincou durante toda à tarde. Chamava um ou outro a entrar na brincadeira, e divertia-se lá do seu jeito costumeiro. Fazia as pessoas em volta sorrirem do seu jeito meio senhor e muito de criança fazendo até brincadeiras com ele.  A alegria era geral.
       O espetáculo estava para terminar após quatro horas de músicas. Meu marido, todo metido a cantor, e cá pra nós, o meu preferido, começou a entoar uma linda canção, enquanto eu, brasileira de fé e coragem, batucava uma pandeireta acompanhando o conjunto. Qual não foi a minha surpresa quando olhei para o “Senhor dançarino” e vi-o chorando.
       Pedi com um gesto de carinho que não chorasse, mas ele se esforçava para dizer algo e não conseguia, ante a emoção que estava sentindo. A música cantada era um oferecimento a ele.
       Meu coração foi ficando apertado ao ver o outro lado daquele homem humilde. O lado desconhecido de todos. A riqueza de sentimentos que ele carregava, transbordava agora pelos seus olhos sem nenhum pudor, enquanto a música de Nuno da Câmara Pereira enchia do salão:
       “Estou velho tão velho / Olho pra ti como um espelho / E vejo a vida passada / Estou velho, mas valho muito mais que alguns jovens / Que dizem serem homens / E não valem nada / Estou velho, mas disfarço muito bem / Tão velho, não faço mal a ninguém / Nem tudo acabou do que fui e não sou / O homem ficou aí ficou, sim ficou / Ai vida que vida / Eu ponho o dedo na ferida / Quando começa a doer / Estou velho casmurro / Já só faço o que percebo / E sei o que devo / E não devo fazer”.
       A música acabou e corri para junto daquele homem e dei-lhe um abraço tão apertado, que acredito eu, poucos na vida, ele recebeu. Pedi-lhe que não chorasse mais, porém agora quem chorava era eu abraçada àquele corpo frágil que soluçava.
       O meu marido aproximou-se e também o abraçou consolando-o. Ele nos olhou e sem nada falar nos juntou num só abraço e olhando-nos carinhoso balançava a cabeça afirmativamente, como se estivesse, de certa forma, nos abençoando. As pessoas ali presentes olhavam a cena caladas. Já ninguém sorria do pobre homem. Ele enxugou o rosto molhado de lágrimas com as mãos trêmulas e saiu acenando um adeus sem nada falar. O meu marido, de coração lindo como é, dirigiu-se às pessoas e disse:
       - “Este homem sofre muito, ele perdeu a sua companheira de muitos anos e está só na vida. Vem até aqui se divertir, mas quando volta para casa, só tem as paredes para escutar a sua dor, que é grande, ele não é qualquer um, com esse seu jeito que faz todos rirem, sabe muito da vida e das coisas e tem sentimentos caros. Ele é grande!”.
       O salão ficou vazio, e só nós do conjunto, ficamos ali, de olhos marejados, desmontando o nosso equipamento para voltarmos para casa. Juntos.

                                                            Lígia Beltrão

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