Por Edmar Lyra
A disputa pelo Senado em Pernambuco sempre caminhou à sombra da eleição para o governo do Estado. Desde a redemocratização, consolidou-se uma tradição: o governador eleito puxava consigo os nomes ao Senado, transformando a corrida senatorial quase em um apêndice da majoritária. Esse padrão só foi quebrado em momentos muito específicos da história política pernambucana. Em 1994, Miguel Arraes conseguiu eleger apenas Roberto Freire, deixando a outra vaga escapar. Em 2006, o fenômeno se repetiu de forma inversa: Jarbas Vasconcelos conquistou uma cadeira no Senado mesmo com a vitória de Eduardo Campos para o Palácio do Campo das Princesas.
O cenário de 2022 representou uma ruptura ainda mais evidente. A disputa pelo Senado ganhou forte contorno nacional, personificada no embate entre Teresa Leitão e Gilson Machado. Teresa saiu vitoriosa em um contexto singular: seu desempenho foi totalmente dissociado do candidato a governador de sua chapa, Danilo Cabral, que terminou apenas na quarta colocação. Foi uma eleição que expôs, de forma cristalina, que o eleitor pernambucano é capaz de separar as escolhas e votar de maneira independente quando o ambiente político assim estimula.
Apesar de ser um dos cargos mais relevantes da República — com influência direta sobre pautas estratégicas, indicações ao Judiciário e o equilíbrio institucional — o Senado historicamente foi tratado como coadjuvante no debate estadual. Esse quadro, porém, tende a mudar radicalmente em 2026. A disputa acirrada pelo governo entre Raquel Lyra e João Campos deve produzir um efeito colateral poderoso: um cenário totalmente aberto para o Senado.
Hoje, apenas um nome surge como franco favorito à primeira vaga: Marília Arraes. Com recall eleitoral, base consolidada e trânsito em diferentes campos políticos, Marília parte alguns passos à frente. A segunda vaga, entretanto, está completamente em aberto. Diferentemente de pleitos anteriores, não há um candidato naturalmente “puxado” pelo governador ou com favoritismo incontestável. Todos os demais postulantes estão no jogo, o que promete uma campanha intensa e fragmentada.
Esse ambiente local se conecta diretamente ao tabuleiro nacional. A eleição presidencial de 2026, que tende a ser protagonizada por Lula e Flávio Bolsonaro, transforma o Senado em prioridade absoluta para ambos os campos. Os bolsonaristas veem na ampliação da bancada uma forma de pressionar o Executivo e impor limites institucionais. Já Lula trabalha na lógica defensiva: conter danos, evitar uma avalanche conservadora e garantir governabilidade mínima. Nesse cálculo, o Nordeste surge como peça-chave, sendo praticamente a única região onde o campo lulista projeta conquistar até 18 das 54 cadeiras em disputa no país.
Pernambuco, portanto, deixa de ser apenas um capítulo local para se tornar peça estratégica no xadrez nacional. A tendência é que, como há muito não se via, o Estado eleja senadores de chapas distintas, refletindo tanto a polarização nacional quanto a fragmentação do cenário estadual. Em 2026, o Senado deixará de ser figurante e ocupará o centro do palco político pernambucano.

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