quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Flávio Bolsonaro surge como adversário competitivo de Lula em 2026

 

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Por Edmar Lyra

A competitividade de Flávio Bolsonaro no tabuleiro presidencial de 2026 tem sido subestimada por parte da análise política, muito em função de leituras apressadas de pesquisas e de um excesso de confiança nos números brutos. Levantamentos recentes, em especial os do Paraná Pesquisas, mostram um cenário que merece atenção: numa simulação de segundo turno, Lula aparece com 44% das intenções de voto, contra 41% de Flávio. A diferença, dentro da margem de erro, indica um embate tecnicamente aberto, algo impensável para muitos analistas que ainda tratam o senador como um nome periférico na disputa nacional.

A leitura desses números precisa ser feita à luz da experiência traumática de 2022 para os institutos de pesquisa. Naquela eleição, as sondagens subnotificaram de maneira consistente o desempenho de Jair Bolsonaro, sobretudo no segundo turno. Chegou-se a divulgar, às vésperas da votação, uma vantagem de quase dez pontos para Lula. A apuração das urnas, no entanto, revelou um resultado histórico: 50,9% a 49,1%, a menor diferença já registrada em uma eleição presidencial no Brasil. O episódio não apenas expôs fragilidades metodológicas, como também evidenciou a existência de um eleitorado conservador silencioso, menos propenso a declarar seu voto a pesquisadores, mas altamente mobilizado no dia da eleição.

Esse pano de fundo torna o desempenho atual de Flávio Bolsonaro ainda mais relevante. Se, mesmo com todas as ressalvas, ele já aparece encostado em Lula em alguns cenários, é razoável supor que seu potencial eleitoral possa ser maior do que indicam os números oficiais. A transferência de votos dentro do campo bolsonarista nunca foi automática, mas o sobrenome Bolsonaro continua sendo um ativo poderoso, especialmente em um país politicamente polarizado e com forte identificação emocional de parcelas do eleitorado com o ex-presidente.

Nesse contexto, o fator Jair Bolsonaro ganha contornos centrais. O estado de saúde do ex-presidente e sua situação jurídica — incluindo a prisão determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, segundo a narrativa adotada por seus aliados — podem atuar como elementos de mobilização política. Para a base bolsonarista, a combinação de fragilidade física e embate institucional tende a reforçar a percepção de perseguição, criando um ambiente emocional que favorece a transferência de apoio a Flávio. Dependendo do quadro em 2026, o senador pode se apresentar não apenas como herdeiro político, mas como continuador de uma causa, o que costuma ser eleitoralmente eficaz.

Outro ponto que relativiza a vantagem de Lula é o elevado índice de rejeição. Pesquisas apontam que cerca de 56% do eleitorado dizem não votar no atual presidente de forma alguma. Flávio Bolsonaro, por sua vez, também enfrenta rejeição alta, na casa dos 60%. Esses números, porém, precisam ser analisados com cautela. Em um ambiente social e econômico marcado por frustrações, crescimento irregular, pressões inflacionárias e desgaste natural de governo, a rejeição tende a oscilar com rapidez. Lula, hoje no Planalto, carrega o ônus do poder. Flávio, ainda que conhecido, pode se beneficiar da lógica do “voto de oposição”, sobretudo se conseguir explorar o sentimento de insatisfação de setores que não enxergam no atual governo a tranquilidade prometida.

A disputa, portanto, não está dada. Flávio Bolsonaro ainda precisa superar desafios importantes, como ampliar sua penetração fora do eleitorado mais ideológico e construir uma imagem presidencial mais robusta. Ainda assim, os números atuais, combinados com o histórico recente das eleições brasileiras, indicam que tratá-lo como figurante é um erro de análise. Se 2022 ensinou algo ao sistema político, foi que pesquisas não votam e que eleições apertadas são decididas muito mais pela mobilização e pelo clima político do que pela fotografia momentânea dos institutos. Em 2026, Flávio Bolsonaro pode não ser favorito hoje, mas já demonstra competitividade suficiente para tornar a disputa imprevisível.

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