quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Ela, Alegria


      
Olhava-a encantada pela sua força de ver as coisas, tratá-las e certamente viver. Ela era uma mistura de rocha e flor. Forte para enfrentar a vida e delicada no trato com todos. Gesticulava alegremente e falava sem parar. Tinha nos olhos o desejo gritante de ser maior. Muito maior do que é. Isso para ela, só, porque para mim não há na terra ninguém de tal tamanho.
       - “Eu nasci na época errada’. Dizia ela relembrando seus sonhos. ‘Eu deveria ter estudado, muito, hoje eu seria muito importante”. E seguia me contando da sua dor em não poder estudar. Tempos terríveis, aqueles, onde a mulher era criada para o trabalho e para aprender a costurar e bordar, para confeccionar um enxoval e casar com o primeiro que se mostrasse um homem sério, ideal para marido. Mostra-me os livros que lê. E lê muito. Sempre leu. Isso a salvou da ignorância tão comum às pessoas da sua época.
      Casou e não se arrependeu. Foi feliz com o homem escolhido, e teve a benção de ser ele, o grande amor da sua vida. Infelizmente quis o destino que ele se fosse ainda novo, para o encantamento a que todos estamos sujeitos. Esta é a nossa certeza. Ela tem uma filha que é dona da sua vida e também é muito feliz com o marido que escolheu. Não tem netos. Não acredita Nesse Deus que vive na boca da maioria das pessoas, que falam Nele, mas que na maioria das vezes não cumprem os mandamentos, que deveria todo o ser humano. Mas acredita numa força inexplicável, vai ver é a que carrega consigo fazendo-a vencer obstáculos e levar dentro de si as suas certezas.
       Chama-me até o seu quarto e mostra-me as belas roupas que ela própria confecciona. Forma os conjuntos. Mostra-me como usar, como combinar umas peças com as outras. Vai falando animada e me contando toda a sua vida, enquanto a sua mão firme baila no ar numa dança sinuosa de quem sabe o que diz. “Olha só este aqui! Quando o visto e coloco uns saltos... Hum, saio toda elegante...” “E este conjunto?” “Fico muito gira com este aqui também. A combinação fica perfeita com esta blusa”. Concordo sorrindo e contagiada com a sua euforia natural, que por vezes parece uma criança serelepe, tal a sua desenvoltura.  É mesmo grande esta mulher!
       Saímos para passear e conhecer melhor o lugar. Ela andava nos guiando e mostrando tudo. Não se cansava nunca. Mostrou-nos as praias mais lindas. Os Centros Comerciais e os restaurantes ditos bons. Mostrou-nos a vida alegre do lugar e jogava palavras no ar e respondia a tudo, antes mesmo de perguntarmos. Fizemos compras. Mostrou-nos seus dotes culinários e nos encheu de boas comidas Alentejanas, como uma açorda de lamber os beiços. Falamos de vários assuntos. O tempo foi curto para admirar ao vivo a maravilha que tinha a minha frente, ensinando-me o melhor de viver e como fazê-lo. Grande mestra das coisas da vida!
       Hoje, não sei por que pensei nela. Lembrei-me do seu sorriso alegre e das suas palavras sábias. Jeito autoritário, mas é só preocupação com todos, talvez por ser a mais velha dos irmãos, porém só na idade, pois a cabeça e mesmo o corpo, com seu andar ligeiro de passadas firmes, mostra, eu acho, a metade da minha idade, ou seja, é a mais nova da família. Mulher muito a frente do seu tempo. Muito além, em tudo. O riso dela ressoa pela casa e pelo meu coração. Ela é alegria. É única. Chama-se força. Chama-se amor.
       Prazer em conhecer o vosso belo coração e ver o vosso exemplo de vida, minha magnifica cunhada, Inácia! Falo para eu mesma, baixinho, enquanto vejo-a com um sorriso escancarado me ensinando a ser mais feliz -.
       Obrigada por existires!

Lígia Beltrão é cronista do jornal O Columinho

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