- “Eu nasci na época errada’. Dizia ela relembrando seus sonhos. ‘Eu
deveria ter estudado, muito, hoje eu seria muito importante”. E seguia me
contando da sua dor em não poder estudar. Tempos terríveis, aqueles, onde a
mulher era criada para o trabalho e para aprender a costurar e bordar, para
confeccionar um enxoval e casar com o primeiro que se mostrasse um homem sério,
ideal para marido. Mostra-me os livros que lê. E lê muito. Sempre leu. Isso a
salvou da ignorância tão comum às pessoas da sua época.
Casou e não se arrependeu. Foi feliz com o homem escolhido, e teve a
benção de ser ele, o grande amor da sua vida. Infelizmente quis o destino que
ele se fosse ainda novo, para o encantamento a que todos estamos sujeitos. Esta
é a nossa certeza. Ela tem uma filha que é dona da sua vida e também é muito
feliz com o marido que escolheu. Não tem netos. Não acredita Nesse Deus que
vive na boca da maioria das pessoas, que falam Nele, mas que na maioria das
vezes não cumprem os mandamentos, que deveria todo o ser humano. Mas acredita
numa força inexplicável, vai ver é a que carrega consigo fazendo-a vencer
obstáculos e levar dentro de si as suas certezas.
Chama-me até o seu quarto e mostra-me as belas roupas que ela própria
confecciona. Forma os conjuntos. Mostra-me como usar, como combinar umas peças com
as outras. Vai falando animada e me contando toda a sua vida, enquanto a sua
mão firme baila no ar numa dança sinuosa de quem sabe o que diz. “Olha só este
aqui! Quando o visto e coloco uns saltos... Hum, saio toda elegante...” “E este
conjunto?” “Fico muito gira com este aqui também. A combinação fica perfeita com
esta blusa”. Concordo sorrindo e contagiada com a sua euforia natural, que por
vezes parece uma criança serelepe, tal a sua desenvoltura. É mesmo grande esta mulher!
Saímos para passear e conhecer melhor o lugar. Ela andava nos guiando e
mostrando tudo. Não se cansava nunca. Mostrou-nos as praias mais lindas. Os
Centros Comerciais e os restaurantes ditos bons. Mostrou-nos a vida alegre do
lugar e jogava palavras no ar e respondia a tudo, antes mesmo de perguntarmos.
Fizemos compras. Mostrou-nos seus dotes culinários e nos encheu de boas comidas
Alentejanas, como uma açorda de lamber os beiços. Falamos de vários assuntos. O
tempo foi curto para admirar ao vivo a maravilha que tinha a minha frente,
ensinando-me o melhor de viver e como fazê-lo. Grande mestra das coisas da
vida!
Hoje, não sei por que pensei nela. Lembrei-me do seu sorriso alegre e
das suas palavras sábias. Jeito autoritário, mas é só preocupação com todos,
talvez por ser a mais velha dos irmãos, porém só na idade, pois a cabeça e
mesmo o corpo, com seu andar ligeiro de passadas firmes, mostra, eu acho, a
metade da minha idade, ou seja, é a mais nova da família. Mulher muito a frente
do seu tempo. Muito além, em tudo. O riso dela ressoa pela casa e pelo meu
coração. Ela é alegria. É única. Chama-se força. Chama-se amor.
Prazer em conhecer o vosso belo coração e ver o vosso exemplo de vida, minha
magnifica cunhada, Inácia! Falo para eu mesma, baixinho, enquanto vejo-a com um
sorriso escancarado me ensinando a ser mais feliz -.
Obrigada por existires!
Lígia Beltrão é cronista do jornal O Columinho

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