quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A MELHOR ESTATUETA DE EÇA

Por Humberto Pinho da Silva


Quando entrevistei D. Emília Cabral, neta do autor dos Maias, fui recebido numa sombria salinha onde havia muitas fotos de família, livros empilhados e sobre  mesa de roscas, em local de destaque,e a estatueta de Gouveia, representando Eça de Queiroz.
A neta do escritor, reparando na minha curiosidade, declarou:
- Minha avó dizia: Se querem conhecer o avô, tal qual era, basta olhar a estatueta de Gouveia - e acrescentou: Conhece-a?!
- Perfeitamente, tenho um exemplar de gesso.
- Pois há poucas! - continuou D. Emília, - que eu saiba, existem quatro, (1) em Portugal: uma, é esta, outra a da minha mana, a Marquesa do Ficalho; há ainda a que se encontra na família da Duquesa de Palmela e a do Palácio de Belém, que pertencia a D. Carlos, julgo que se extraviou pelas caves, há muito….(2)
A palestra prosseguiu enquanto mostrava velhas lembranças das famílias: Eça de Queiroz e Condes de Resende.
Por certo a maioria dos leitores nunca ouviram falar do escultor Francisco da Silva Gouveia, ilustre portuense, que os livros de arte registam, a Wikilusa menciona e o dicionário de Eça de Queiroz nomeia e dá-lhe merecido relevo.
Tentarei, por maior, esboçar brevíssima biografia do escultor que - segundo a esposa do romancista, Dona Emília de Castro Pamplona (Resende), - conseguiu a melhor representação plástica de Eça:
Nasceu no Porto a 12 de Agosto de 1872, na Rua dos Ingleses, filho de abastado comerciante da Rua de S. João, da mesma cidade.
O pai, João Maria de Gouveia Pereira, pretendia prepará-lo para administrar os negócios paternos, mas o rapaz inclinava-se para o desenho.
Certa vez o tio Caetano - irmão da mãe - vendo o pai repreender acerbamente a inclinação, acicatou-o a matriculá-lo na Escola de Belas Artes.
Concluídos os estudos na Academia Portuense, deslocou-se a Paris para prosseguir o ensino com reputados mestres da escultura europeia.
Em França foi discípulo de Rodin e Injalbert e recebeu aulas de Falguière, Pueche e Rolard, sendo admitido na Academia Julien e Calaron.
O jovem artista torna-se rapidamente conhecido em Paris, graças a tertúlias e às concorridas recepções que Eça de Queiroz organizava na embaixada.
Certa tarde do ano de 1890 estava Gouveia a trabalhar no atelier quando deslumbra, pela janela de guilhotina, graciosa menina, de tez clara e lhano meneios.
Abeirou-se da vidraça e verifica que a jovem trajava uniforme do Liceu Fenelon.
Era Claire Jeancourt, órfã, oriunda de Boult-aux-Bois. Gouveia ficou entusiasmado com a beleza, mas não se encorajou a declarar-lhe afeição.
Semanas mais tarde, conversando com amigos da precisão de aperfeiçoar o seu francês, pediu-lhes que indicassem professor. Qual não foi o assombro quando soube que a mestra era a menina por quem andava enamorado.
Meses depois casaram na Igreja de Notre Dame de Champs, apadrinhados pela Senhora Duquesa de Palmela.
Infortunadamente, em 1914, “Fran” - diminutivo carinhoso como a mulher o tratava, - adoeceu gravemente e regressa inopinadamente a Portugal.
Consultado o Dr. Manuel Correia de Barros, oftalmologista, avisaram-no que havia perigo de cegar.
Receoso, agasalha-se com a esposa no lar da Ordem do Carmo, no Porto, abandonando os tasselos e as matrizes de fundição.
 Nos anos quarenta era frequente vê-los passear pela baixa portuense. Ele, baixo, gordo, segurando guarda-chuva de paninho preto, quase sempre aberto; ela, muito branca, rosada nas faces, esquelética e de estatura elevada.
Gouveia iniciou em Portugal as exposições individuais - de inicio nos salões de casas fotográficas; - e foi agraciado pelo Rei D. Carlos, Cavaleiro de S. Tiago; reconhecimento pátrio do elevado valor artístico de sua obra.
Na Grande Exposição Universal de Paris do ano de 1900, obteve a medalha de prata e várias menções honrosas pelas obras expostas.
Ficou na memória dos que o conheceram a extrema dedicação da esposa. Conta-se que certa manhã de Primavera, Claire, já viúva, deixou tombar, por descuido, o retrato do marido. Curvou-se vertiginosamente e com os olhos azuis, azul miosóte, turvados de lágrimas, beijou-o com ternura e afectuosamente disse:
- “ Oh! Perdon, mon amour!
Das obras de Silva Gouveia destaca-se a célebre estatueta do escritor, considerada a melhor caricatura de Eça de Queiroz e talvez a estatueta mais notável de Portugal, segundo o parecer de reportados críticos de arte.
Exemplar da “Estatueta Célebre” - como foi conhecida na época, - foi adquirida pelo Rei D. Carlos. Até à data do regicídio permaneceu sobre a secretária do seu gabinete de trabalho.
Francisco da Silva Gouveia faleceu a 28 de Dezembro de 1951, no Porto, no Hospital dos Terceiros do Carmo.
Aqui tem, caro leitor, a breve biografia do artista que conseguiu prender, no bronze, a melhor representação do genial escritor.






1 - Equivocou-se a neta do Eça. Deve haver dezenas, em colecções particulares, além das que foram adquiridas pela: Sociedade “Amigos da Arte” de Bordeux, Academia de Ciências de Lisboa, Museu de Arte Contemporânea, e a que se encontra em Tormes. No Rio de Janeiro, há também um exemplar, pertença de António do Nascimento Cottas. Existe, também, um excelente baixo relevo, de Gouveia, que em nada é inferior à estatueta. Esse sim, é raríssimo; assim como desenho a craião, que ilustra este artigo,do ano de 1927, feito pelo autor da "estatueta célebre".

2 - A estatueta de bronze, que pertencia a Rei D. Carlos, foi adquirido, mais tarde, pelo Marquês de Ficalho , num antiquário lisbonense.

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