Por Marcos Antônio - A crescente insatisfação entre os praças das Forças Armadas brasileiras tem se tornado um tema cada vez mais presente nos bastidores dos quartéis e nos debates reservados da caserna. Cabos, soldados, sargentos e subtenentes — a base operacional que sustenta o funcionamento cotidiano das instituições militares — sentem-se, em grande parte, desvalorizados, invisibilizados e tratados de forma desigual pelas autoridades civis e, em alguns casos, pela própria hierarquia militar.
Entre os principais focos de descontentamento estão as disparidades salariais internas, a defasagem de vencimentos frente à inflação, a redução de benefícios históricos, as dificuldades de progressão na carreira e a percepção de que os sacrifícios exigidos à tropa não encontram correspondência em reconhecimento institucional ou respaldo político. Muitos praças relatam que, enquanto lhes é cobrada disciplina absoluta, lealdade irrestrita e neutralidade política, decisões tomadas em níveis superiores acabam penalizando justamente aqueles que menos poder têm para reagir.
Esse sentimento é agravado pela comparação constante com outras carreiras de Estado, como forças policiais e membros do alto escalão do serviço público, que obtiveram avanços salariais e institucionais mais expressivos. Para os praças, a mensagem implícita é clara: há um abismo entre o discurso oficial de valorização das Forças Armadas e a realidade vivida pela base da tropa.
O risco que emerge desse cenário não é apenas corporativo, mas institucional. A história demonstra que a erosão prolongada da moral militar, quando combinada com a sensação de injustiça e abandono, pode gerar rupturas perigosas. Embora a disciplina e a legalidade ainda sejam pilares sólidos nas Forças Armadas brasileiras, o acúmulo de frustrações cria um terreno fértil para tensões internas, manifestações informais de insubordinação e, no limite, o risco de movimentos coletivos de contestação — algo incompatível com o papel constitucional das instituições militares.
Não se trata de afirmar a iminência de um motim, mas de reconhecer que ignorar sistematicamente as demandas da base é uma estratégia arriscada. A estabilidade das Forças Armadas depende não apenas de armamentos, doutrina e comando, mas também do respeito, da dignidade e do sentimento de pertencimento daqueles que vestem a farda diariamente.
O diálogo institucional, a transparência nas decisões e uma política efetiva de valorização dos praças não são concessões, mas investimentos na coesão e na segurança do próprio Estado. Desconsiderar esse alerta silencioso pode custar caro — não apenas às Forças Armadas, mas à própria ordem democrática que elas juram defender.

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