Da esq. para dir. Luciano Temporal, Bruno Delgado, Daniel Saboya, Gustavo Monteiro e Antônio Mário
Do Blog Manoel Medeiros – Quatro secretários da cúpula da Prefeitura do Recife ingressaram com uma ação na última quinta-feira (5) para que o Blog Manoel Medeiros apague as matérias e os vídeos postados em referência à revelação da existência de uma empresa chamada “Sítio Pedra da Onça” pertencente a eles, constituída em janeiro de 2024, quando já participavam da administração municipal em cargos estratégicos. Os questionamentos sobre o assunto foram levados inclusive ao Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE).
A pessoa jurídica foi fundada em parceria com o atual vice-prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), que deixou a sociedade semanas antes de ser escolhido como candidato a vice na chapa à reeleição do prefeito. Os secretários também pedem que o jornalista seja previamente proibido de falar sobre o assunto, a partir da abordagem que tem feito, faça uma retratação e pague R$ 75 mil (R$ 15 mil a cada um dos autores da ação) por danos morais.
O empreendimento está registrado num coworking no Poço da Panela, Zona Norte do Recife, fechado a maior parte do tempo. A reportagem esteve no local por três vezes e não registrou qualquer movimento. O coworking fica no mesmo terreno de um colégio com nome Veritá. O negócio do “Sítio Pedra da Onça”, inicialmente denominado “Agropecuária Pedra da Onça”, não tem site, não tem redes sociais, não tinha funcionários, e um imóvel adquirido pela empresa em fevereiro de 2024, em Chã Grande, não tem qualquer característica de empreendimento ativo, como criação de bois ou cavalos.

Sítio funciona oficialmente em endereço fiscal localizado no Poço da Panela
Por esse terreno, conforme a certidão imobiliária, foram pagos R$ 260 mil em espécie. O Blog esteve no local e conversou com moradores, presencialmente e através das redes sociais. Há registros da imprensa local falando sobre o “sítio do poder” (leia aqui). Também não há placa nem funcionários no local.
O prefeito João Campos foi flagrado em maio de 2024, pelo blog Política no Forno, acompanhado dos sócios da então “Agropecuária Pedra da Onça”, galopando na região do imóvel adquirido meses antes, levantando a hipótese de que poderia ser o sócio oculto do negócio. Nas redes sociais, alguns usuários afirmaram que na região há o comentário de que a unidade seria do prefeito.
Apesar da relevância pública de todos os cargos ocupados pelos sócios da empresa, que controlam um orçamento de pelo menos R$ 1,5 bilhão, o fato de serem empreendedores nas áreas de “comercialização de imóveis próprios”, “aluguel de imóveis próprios”, “criação de bovinos para corte”, “criação de equinos e produção de sêmen”, “incorporação de empreendimentos imobiliários” e “aluguel de imóveis próprios” nunca foi registrado nos currículos dos secretários nem exposto à imprensa. A participação societária do vice-prefeito também nunca veio à tona. O Blog Manoel Medeiros revelou os fatos com exclusividade a partir de apresentação de documentos públicos.

Imóvel registrado no CNPJ fica em Chã Grande
Os números da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) registrados na Receita Federal pelo empreendimento são também utilizados por organizações criminosas para ocultação de patrimônio e lavagem de capitais. Tal achado, antes de ser uma novidade inventada por este autor, é amplamente discutido – inclusive a partir de referências bibliográficas das mais diversas – por especialistas em combate à corrupção e levada em conta nas investigações de órgãos de fiscalização das diversas esferas.
Como funcionários públicos, em vez de tentar impedir a disseminação de informações relevantes ao públicos, os secretários poderiam explicar o que os levou a criar uma empresa que tem como principal atividade a comercialização de imóveis próprios além de tantos outros CNAEs que divergem na sua própria natureza. Quais imóveis seriam esses, por exemplo?
Sociedade envolve cinco integrantes da cúpula da gestão
Sociedade envolve cinco integrantes da cúpula da gestãoA ação civil, que tramita na Seção A da 7ª Vara Cível da Capital tem como autores o secretário de Articulação Política e Social, Gustavo Monteiro, o chefe da Assessoria Especial do Prefeito, Antônio Limeira Filho, o presidente da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife, Daniel Saboya, o secretário executivo de Ordem Pública e Segurança Luciano Temporal Carneiro, e Bruno Delgado de Souza, sócio-administrador, que foi nomeado por João Campos para o cargo de secretário executivo de Transformação Digital em dezembro de 2025. De acordo com a petição, apesar de ter sido nomeado, Bruno não foi empossado.
Os quatro secretários que são sócios do Sítio Pedra da Onça tem ampla participação na contratação e pagamento de valores significativos de recursos públicos municipais. O próprio Luciano Temporal Carneiro, à frente da Secretaria Executiva de Infraestrutura e Articulação da Saúde, teria atuado na contratação de empresas investigadas na Operação Barriga de Aluguel do Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE).
A regra da administração pública municipal é que um servidor comissionado ou efetivo não pode exercer atividade de gerência ou administração de uma sociedade empresarial privada. Ele pode ser cotista, mas não administrador ou gerente. No caso, Bruno Delgado foi nomeado pelo prefeito enquanto exercia ao mesmo tempo a administração do Sítio Pedra da Onça, fato que foi questionado por este Blog. Até o momento das publicações, não havia qualquer notícia de que a nomeação assinada por João Campos havia sido anulada.
Representados pelos advogados Paulo Roberto de Carvalho Maciel e Crystiane Claudino de Moura Queiroz, os secretários pedem que a Justiça determine “imediata retirada das referidas postagens e publicações caluniosas dos seus canais da internet (cf. Doc. 6), bem como se abstenha de praticar novas postagens com conteúdo caluniador em relação aos autores”. Conforme a petição, “importa frisar que o que aqui está em questão é a retratação e indenização por uma conduta reiteradamente caluniosa à vida e imagem de cinco homens, que precisam se ver livres de mais novas publicações a lhes perturbarem o cotidiano”.
O Blog Manoel Medeiros reitera seu compromisso com a exposição de fatos que, mesmo verdadeiramente incômodos para aqueles acostumados ao império do silêncio, têm como fonte principal a apuração em documentos públicos e in loco. Nesse sentido, também se adianta como cumpridor de decisões judiciais, ato fundamental aos que acreditam no estado democrático de direito, na imprensa livre, na preservação inviolável da fonte e no direito do cidadão de questionar autoridades públicas, sejam elas quais forem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário