Por Edmar Lyra
A disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro entrou em um novo estágio — mais agressivo, mais direto e, sobretudo, mais imprevisível. O que antes era tratado como um cenário provável, mas ainda distante, ganhou contornos de realidade imediata após a divulgação de uma pesquisa que colocou o filho do ex-presidente numericamente à frente do atual chefe do Planalto em um eventual segundo turno. O dado caiu como um choque dentro do governo e acelerou uma mudança de postura que já vinha sendo ensaiada nos bastidores.
A reação foi rápida. Lula abandonou a estratégia de evitar o confronto direto — adotada até então para não inflar um adversário em ascensão — e passou a estimular críticas públicas mais contundentes ao bolsonarismo e, em especial, ao seu novo representante eleitoral. A leitura no entorno presidencial é clara: a antecipação do embate pode ser a única forma de conter o crescimento de Flávio antes que ele consolide seu nome no eleitorado mais amplo. Trata-se de uma inflexão relevante, que indica que o Planalto já enxerga a disputa de 2026 não mais como hipótese, mas como uma batalha em curso.
Do outro lado, a candidatura de Flávio Bolsonaro deixa de ser apenas um movimento de herança política para se tornar um projeto competitivo. Amparado pelo capital simbólico do pai e pela reorganização do campo conservador, o senador passou a ocupar espaço com discurso mais moderado e presidencial, sem abrir mão da base ideológica bolsonarista. As pesquisas recentes mostram um país dividido não apenas na preferência, mas também no medo: há praticamente o mesmo contingente de eleitores receosos com a reeleição de Lula e com a eventual vitória de Flávio — um retrato cristalino da polarização que continua estruturando a política brasileira.
Nesse ambiente, a eleição de 2026 tende a ser menos sobre propostas e mais sobre rejeições. A alta taxa de resistência a ambos os polos sugere que vencerá não apenas quem mobilizar mais apoio, mas quem conseguir reduzir sua própria rejeição. É aí que mora o risco — e a oportunidade — para os dois lados. Lula aposta na memória institucional e no temor de retrocessos; Flávio, na fadiga de parte do eleitorado com o atual governo e na força de um legado político ainda vivo. O resultado é um confronto que começa antes do tempo, com temperatura de segundo turno e sem espaço para neutralidade.

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