segunda-feira, 29 de junho de 2020

Apoio de 75% a democracia é recado para Bolsonaro, dizem entidades

Um pesquisa do Datafolha mostra apoio de 75% da população à democracia


 Getty
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um recado claro para o presidente Jair Bolsonaro, que vem flertando com discursos autoritários e de ruptura institucional.

Assim, representantes de entidades de defesa dos direitos humanos e de movimentos da sociedade civil avaliaram a pesquisa Datafolha que mostra apoio de 75% da população à democracia.

Eles também elogiaram a campanha lançada pela Folha de S.Paulo de defesa do regime democrático, que inclui um curso online e um projeto especial didático retratando a ditadura militar, destinado, sobretudo, a quem não viveu diretamente aquele período.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 70% dos brasileiros tinham no máximo dez anos de idade quando a ditadura acabou, em 1985.

"A pesquisa mostra que o Brasil está convalescendo. O risco de um golpe de Estado está a exigir reação forte em prol da democracia. A pesquisa mostra que este movimento ganha corpo", disse o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns.

Atuante na campanha das Diretas Já, em 1983-84, Dias afirmou que a campanha lançada pela Folha de S.Paulo o "enche de esperança".

"Este é o momento de abrir mão das divergências menores em prol de uma causa maior, a defesa da democracia", declarou.

A campanha da Folha de S.Paulo, inspirada nas Diretas, conta também a inclusão de uma faixa amarela embaixo do cabeçalho do jornal e a mudança do slogan para "Um jornal a serviço da democracia".

Fundador do "Somos 70%", grupo que pretende reunir todos os que não apoiam Bolsonaro, Eduardo Moreira afirma que é importante deixar claro para o presidente e seus apoiadores que não se pode colocar em dúvida as balizas democráticas.


"É importantíssima a campanha. O fato de estarmos discutindo a democracia com tanto interesse é a prova cabal de que ela está ameaçada, um sintoma claro. As iniciativas em defesa dela que estão surgindo não são criações de fulano ou sicrano, são vocalizações de algo maior que as pessoas estão sentindo", afirmou.


Diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sottili afirmou que "a pesquisa Datafolha reflete que o que vinha sendo trabalhado pelo governo Bolsonaro do ponto de vista de enfrentamento das instituições não tem amparo na sociedade brasileira".

"Bolsonaro vem perdendo crédito junto à sociedade. Toda aquela fanfarra, aquele gesto de enfrentamento ao Estado de Direito, de apologia à tortura, a grande maioria da população é contra", disse.

Para Sottili, o momento é de unificar movimentos pró-democracia. "Deixa as divergências para aparecerem no debate político e nas próprias eleições. A Folha mais uma vez demonstra que tem compromisso irrestrito com a democracia e ajuda a amplificar o que a sociedade vem fazendo neste momento", declarou.

O advogado Pierpaolo Bottini, coordenador do Observatório da Liberdade de Imprensa da OAB, diz que o dado da pesquisa é positivo, mas alerta para o risco de acomodação.

"O que a gente precisa é que esses 75% façam barulho também, da mesma forma que os defensores da ditadura. É preciso sair do comodismo, ainda que por enquanto de dentro de casa, no meio virtual", afirmou.

Segundo ele, as manifestações em defesa da democracia dos últimos dias já contribuíram para moderar um pouco a retórica do presidente. "Isso mostra como ficar quieto não é uma opção nesse momento", disse.

Na mesma linha, a diretora-executiva da Conectas Direitos Humanos, Juana Kweitel, afirma que os 75% de apoio à democracia revelados pela Datafolha são "um patrimônio que temos de cuidar".

"A gente precisa sempre manter a guarda e denunciar o que significa não poder falar, não poder sair na rua, não pode debater", afirmou.

Segundo ela, há um certo espanto de entidades de direitos humanos em outros países sobre a ameaça de retrocesso democrático vivida no Brasil.

"Tenho conversado com muitos interlocutores internacionais e havia uma sensação de que o povo brasileiro não estava reagindo. Mas temos visto nos últimos dias um espectro político muito amplo repudiando a ditadura, e isso reenergizou a sociedade. Isso certamente pressiona o mundo político a sair em defesa da democracia", disse.

A campanha da Folha de S.Paulo em defesa da democracia recebeu também destaque na imprensa internacional. "Importante jornal brasileiro se mobiliza pela democracia à medida em que cresce inquietação com Bolsonaro", disse o jornal britânico The Guardian.

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