Reconhecimento da importância da festa não elimina os limites do bom senso e discrepância entre os R$ 4,6 milhões com um palco de Carnaval em detrimento de abandono de obra de R$ 2,9 milhões na área de saúde chama atenção
A Prefeitura do Recife turbinou em R$ 1,1 milhão o valor contratado para instalação e funcionamento (aluguel) do palco do Marco Zero esse ano em relação a 2025 e R$ 1,5 milhão em relação a 2024. O cálculo não leva em consideração gastos com nenhum outro item como artistas, bufê e segurança e levanta dúvidas sobre a compatibilidade dos valores, que representam quase três mil salários mínimos. Mesmo considerando a festa como fundamental para o turismo da cidade, um mínimo equilíbrio e bom senso entre os gastos, privilegiando questões básicas como saúde, deveria ser a real prioridade.
O custo recorde para o funcionamento do palco por seis diárias contrasta diretamente com a falta de recursos da mesma Prefeitura para a conclusão de uma obra de reforma na área de saúde que se arrasta desde o primeiro semestre de 2024 e fica a pouco mais de um quilômetro da festa. A Policlínica Gouveia de Barros, na Boa Vista, referência em testagem de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), tratamento de HIV, HV e PrEP – que ganha ainda mais relevância nesse tempo de festas – está com a sua obra de reforma inacabada. Com custo previsto de R$ 2,9 milhões, a placa da obra indica que sua conclusão foi pactuada para abril de 2025, há quase um ano.
O custo da reforma completa da Policlínica é 60% o custo do aluguel e funcionamento do palco do Marco Zero no Carnaval 2026.

Os pacientes atendidos na Policlínica Gouveia de Barros estão desde abril de 2024 obrigados a se deslocar dois quilômetros para a Policlínica Waldemar de Oliveira, em Santo Amaro. Em visita à unidade fechada, a reportagem encontrou apenas dois trabalhadores e um vigilante. Caso tivesse mantido o mesmo valor do grande palco do Carnaval de 2024, muito elogiado pelo público, restariam mais de R$ 2,0 milhões para a gestão municipal investir na reabertura da Policlínica situada a apenas 1,5 km do principal polo da folia recifense.

Os três principais contratos que possibilitam a montagem da estrutura (1,4625 milhão), a instalação dos painéis de LED (1,705 milhão) e do som mais iluminação cênica (1,399) totalizam R$ 4,6 milhões. Em 2024 os três contratos somaram R$ 3,1 milhões e em 2025 R$ 3,5 milhões. Comparando com 2024, que já tinha um palco de grande porte, plasticamente aprovado pelo público, o crescimento da despesa é de 48%. Esse ano, por dia, apenas a infraestrutura do palco custará aos cofres públicos 770 mil. O valor total é cerca de sete vezes maior do que se gastou no palco do gigantesco Réveillon do Recife (Virada), no Pina, concedido pela Prefeitura à iniciativa privada, embora o detalhamento ainda não tenha sido disponibilizado ao público.
A previsão é que a festa de carnaval do Recife tenha custo superior aos R$ 80 milhões este ano. Embora as propagandas apontem a existência de doze patrocinadores, sendo os principais a casa de bets Esportes da Sorte e a cervejaria Amstel, a Prefeitura não divulgou quanto a iniciativa privada pagará pelas cotas.
A infraestrutura teve como empresa contratada a G2 Soluções em Eventos Ltda., os painéis de LED estão sob responsabilidade da Pleno Recife Locações Audiovisuais enquanto o som e a luz estão a cargo da Event Serviços de Atividade de Sonorização e de Iluminação Ltda..



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