Ela se tornou o motivo dele sobreviver.
Depois da guerra, ele a procurou todos os dias… até encontrá-la.
Quando Lale Sokolov chegou a Auschwitz-Birkenau em 1942, os guardas da SS arrancaram tudo o que ele tinha.
Seus pertences.
Sua dignidade.
Seu nome.
Rasparam sua cabeça. Deram-lhe roupas de prisioneiro. E tatuaram um número em seu antebraço esquerdo:
32407.
Em Auschwitz, nomes eram perigosos. Nomes significavam que você ainda era humano. Os nazistas queriam números — fileiras de corpos idênticos, descartáveis.
Lale Sokolov se tornou o prisioneiro 32407.
E seu trabalho seria garantir que todos os outros também se tornassem números.
Lale falava várias línguas — alemão, russo, francês, eslovaco. Os guardas perceberam. Chamaram-no de lado e lhe deram uma função que salvaria sua vida… e o assombraria para sempre:
Ele se tornou o Tätowierer — o tatuador do campo.
Todos os dias, Lale ficava diante de uma pequena mesa com agulha e tinta. Novos prisioneiros eram levados até ele — homens, mulheres, crianças.
Ele segurava seus braços… e gravava números em suas peles.
Marcas permanentes de apagamento.
Era um trabalho que o enchia de vergonha.
Mas também o mantinha vivo.
A função lhe dava pequenos privilégios: mais comida, roupas um pouco melhores, liberdade limitada para circular entre setores.
Em Auschwitz, isso significava a diferença entre viver e morrer.
Lale fez uma promessa a si mesmo:
Se esse trabalho me mantém vivo… vou usá-lo para ajudar outros.
Ele contrabandeava pão.
Trocava objetos dos mortos por remédios.
Sussurrava avisos quando podia.
Pequenos atos de resistência em um lugar criado para destruir qualquer resistência.
Mas ele ainda estava sozinho.
Ainda lutando apenas por mais um dia.
Até que, em julho de 1942, uma jovem foi levada até sua mesa.
Seu nome era Gita Furman.
Ela tinha 21 anos. Olhos escuros. Uma força maior que o medo.
Quando Lale segurou seu braço para tatuar o número 34902… seus olhares se encontraram.
E algo impossível aconteceu dentro de Auschwitz.
Ele se apaixonou.
Não aos poucos.
Não com cuidado.
Instantaneamente. Completamente.
Mais tarde, ele diria que soube naquele momento que se casaria com ela — se sobrevivessem.
Se isso fosse possível naquele inferno.
Depois de terminar a tatuagem, Lale fez algo proibido:
Perguntou seu nome.
“Gita”, ela sussurrou.
“Eu sou Lale”, ele respondeu. “E um dia vou me casar com você.”
Ela achou que ele era louco.
Mas não o esqueceu.
A partir daquele dia, sobreviver deixou de ser apenas sobre ele.
Amar alguém em Auschwitz era perigoso.
Proibido.
Dava aos nazistas mais uma forma de te ferir.
Mas também dava um motivo para continuar.
Lale começou a procurá-la. Descobriu em qual barracão ela estava. Decorou horários dos guardas. Aprendeu quem podia ser subornado.
E começou a levar comida para ela.
Pão.
Chocolate.
Remédios quando ela adoeceu.
Cada gesto poderia levá-lo à morte.
Mas ele não parou.
Quando Gita ficou doente com tifo, febril e quase inconsciente, Lale subornou um médico para conseguir tratamento.
Ela sobreviveu.
Eles se encontravam quando podiam — momentos roubados, breves, perigosos.
Conversas sussurradas.
Olhares que diziam tudo.
“Fique viva”, ele dizia.
“Promete que vai ficar viva.”
“Só se você prometer o mesmo”, ela respondia.
Durante três anos, Lale tatuou números nos braços de centenas de milhares de pessoas.
Viu trens chegarem todos os dias.
Famílias inteiras desaparecendo em horas.
Crianças marcadas com números que nunca viveriam para entender.
Ele via a fumaça subir das chaminés.
E sabia o que aquilo significava.
Mas, todas as noites, pensava em Gita.
O número 34902 deixou de ser apagamento.
Virou motivo.
Em janeiro de 1945, com o avanço do exército soviético, os nazistas começaram a evacuar o campo.
Vieram as marchas da morte.
E Lale e Gita foram separados.
Sem despedida.
Sem certeza.
Sem saber se o outro ainda viveria.
Lale conseguiu escapar nos últimos dias do caos.
Estava livre.
Mas não em paz.
Porque não sabia se Gita estava viva.
A guerra terminou.
Milhões morreram.
As chances de encontrar alguém eram quase inexistentes.
Mas Lale não desistiu.
Ele voltou para Bratislava — sua cidade natal.
E passou a ir à estação de trem… todos os dias.
Esperava.
Observava cada rosto.
Dias viraram semanas.
Semanas viraram meses.
Até que, em outubro de 1945, ele viu uma carroça se aproximando.
E, nela… estava Gita.
Viva.
Contra todas as probabilidades.
Ele correu até ela.
Quando se abraçaram, não havia palavras.
Só lágrimas.
Eles se casaram naquele mesmo ano.
“Eu disse que me casaria com você”, ele falou.
Em 1949, emigraram para a Austrália.
Construíram uma nova vida. Tiveram um filho. Tentaram viver normalmente.
Mas Auschwitz nunca os deixou.
Por décadas, Lale quase não falou sobre o que viveu.
A culpa o consumia.
Gita entendia. Nunca o pressionou.
Eles viveram juntos.
Se amaram intensamente.
E carregaram o passado em silêncio.
Gita morreu em 2003.
Lale ficou devastado.
Depois de 58 anos juntos, ele não sabia existir sem ela.
Foi então que, aos 87 anos, decidiu contar sua história para Heather Morris.
Não por fama.
Mas para garantir que o mundo lembrasse dela.
“O número dela era 34902”, ele disse.
“Mas o nome dela era Gita.”
Lale morreu em 2006.
Em 2018, Heather Morris publicou The Tattooist of Auschwitz.
A história se espalhou pelo mundo.
Mas o que torna tudo isso extraordinário não é heroísmo grandioso.
Lale não liderou revoltas.
Não destruiu máquinas.
Não salvou centenas.
Ele apenas amou uma pessoa.
E esse amor manteve os dois humanos em um lugar feito para destruir a humanidade.
Os nazistas tentaram transformá-los em números.
32407.
32408.
Mas eles nunca esqueceram seus nomes.
E quando a guerra acabou…
Lale não procurou por um número.
Ele procurou por Gita.
Porque, em um lugar onde tudo foi feito para apagar a humanidade…
o amor — teimoso, impossível, indestrutível — provou que eles ainda eram humanos.
E isso… foi o suficiente.

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