quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Mensagens reveladas pela PF mostram Fernando Bezerra Coelho ordenando obras sem projetos e articulando com ministro indicação na Codevasf


Diálogos foram obtidos no celular do ex-senador e estão detalhados na decisão de Flávio Dino dentro da Operação Vassalos, deflagrada na última quarta

Por Rodrigo Fernandes

O ex-senador Fernando Bezerra Coelho - Divulgação

Mensagens extraídas do celular do ex-senador Fernando Bezerra Coelho revelam o comando direto que ele exercia sobre contratos públicos em Petrolina e sobre a indicação de cargos na 3ª Superintendência Regional da Codevasf, inclusive com interlocução direta com o então ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República, general Luiz Eduardo Ramos, no governo de Jair Bolsonaro.

Os diálogos, obtidos em parte no celular do ex-senador, apreendido durante a Operação Desintegração, estão detalhados na decisão assinada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 30 de janeiro de 2026, que autorizou as buscas e apreensões cumpridas pela Polícia Federal na última quarta-feira (25), dentro da Operação Vassalos.

"Pernambuco é do Senhor, Senador"

Em julho de 2019, Fernando Bezerra Coelho travou uma conversa com o general Luiz Eduardo Ramos sobre a manutenção de Aurivalter Cordeiro Pereira da Silva na chefia da 3ª Superintendência Regional da Codevasf, em Petrolina, cargo para o qual o próprio senador o havia indicado em 2016.

Segundo a decisão do ministro Dino, o ex-senador afirmou ao general se tratar de sua cidade e de sua indicação, sinalizando que a nomeação de outra pessoa representaria uma "completa desmoralização para quem hoje é líder do governo".

O general, então, o tranquilizou: "Pernambuco é do Senhor, Senador".

O interesse de Fernando Bezerra na manutenção de Aurivalter no cargo tinha razões práticas, segundo a Polícia Federal: os investigadores apontam que ele seria o "braço longo" do núcleo político dentro da estatal. Mensagens analisadas pela corporação mostram que ele recebia determinações dos Coelho e enviava prestações de contas quase semanais ao ex-senador e ao deputado Fernando Filho, em um padrão que se repetia por meses consecutivos.

Os relatórios de análise do celular de Fernando Bezerra Coelho evidenciam, segundo a PF, "a ascendência de Fernando Bezerra Coelho e de Fernando Filho sobre Aurivalter, passando-lhe determinações e indicando prioridades a serem cumpridas".

O ex-superintendente também solicitava a intermediação dos políticos junto à presidência e a outros órgãos centrais da Codevasf para resolver pendências da gestão regional, o que, para a PF, demonstrava que ele "atuaria como longa manus do núcleo político da organização criminosa naquele órgão". Aurivalter permaneceu no cargo de julho de 2016 até maio de 2023.
"Não vamos deixar de iniciar as ruas por não ter projeto"

Outro diálogo do ex-senador envolve Frederico Melo Machado, então secretário municipal de Infraestrutura de Petrolina. Em conversa também extraída do celular do ex-parlamentar, ele demonstra não apenas ciência das contratações da Liga Engenharia — empresa que está no centro a Operação Vassalos e cujos sócios são parentes da família Coelho —, mas participação ativa na condução das obras, inclusive determinando sua execução sem que os requisitos legais estivessem cumpridos.

Em um dos trechos destacados pela Polícia Federal, o ex-senador ordena ao secretário a ampliação do escopo das obras além do que havia sido tecnicamente previsto: "Manda fazer projeto para mais 10MM de recapeamento! Total 70MM!".

Em outro diálogo, diante de uma pendência burocrática que ameaçava atrasar o início dos serviços, Fernando Bezerra foi categórico: "Não vamos deixar de iniciar as ruas em paralelo por motivo de não ter projeto. Deixe comigo que resolvo na segunda com Aurivalter e Adriana".

A ausência de projeto básico era justamente uma das irregularidades centrais apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pela Controladoria-Geral da União (CGU) nos contratos da Liga Engenharia com a Codevasf.

Para a Polícia Federal, a mensagem corrobora a tese de que "o interesse dos envolvidos é no direcionamento dos recursos públicos da forma mais proveitosa para eles, e as formalidades necessárias a dar aparência de legalidade aos atos somente são atendidas e superadas na medida em que se tornam um empecilho ao andamento do esquema criminoso".

Mensagens sobre emendas e recursos

A decisão do ministro Dino também cita mensagens encontradas no celular de Fernando Bezerra Coelho com o então ministro do Desenvolvimento Regional Gustavo Canuto, nas quais este último demonstrava preocupação com o volume de recursos sendo direcionados à Codevasf.

Canuto alertou o senador sobre a necessidade de estabelecer limites, afirmando que, "caso contrário, as concessões serão cada vez maiores, chegando ao ponto, inclusive, de desvirtuar completamente a imagem do nosso governo".

A Polícia Federal conclui que "a preocupação do ex-ministro do Desenvolvimento Regional se transformou em realidade", com "fortes indicativos de que transferências de valores milionários para a Codevasf, em verdade, tinham por objetivo favorecer não apenas o município de Petrolina", mas também "empresas pertencentes a pessoas próximas aos políticos".

O monitoramento das emendas era feito de perto pelo assessor parlamentar de Fernando Filho, Joel Brito Rocha. Em uma das mensagens citadas na decisão, ele encaminhou ao então vice-prefeito Simão Durando uma "lista consolidada de recursos 2017 de FF e FBC", na qual constavam R$ 10,6 milhões para Petrolina, do total de R$ 55,2 milhões em recursos extraorçamentários, além de R$ 5,4 milhões para o município em emendas parlamentares, do total de R$ 20,2 milhões.
Influência sobre a Codevasf também após Aurivalter

Com a saída de Aurivalter da 3ª Superintendência em maio de 2023, a influência dos Coelho sobre a Codevasf teria migrado para dois outros servidores, segundo a Polícia Federal.

Guilherme Almeida Gonçalves de Oliveira, ex-chefe de Gabinete da Presidência da Codevasf entre 2015 e 2021, reportava diretamente ao senador sobre a descentralização de recursos do Ministério do Desenvolvimento Regional para a estatal. As mensagens analisadas pela PF, especialmente as de 2019, mostram que ele informava Fernando Bezerra sobre repasses da direção nacional às superintendências regionais e atuava como intermediador dos interesses dos Coelho junto à cúpula da empresa.

Já Marcelo Andrade Moreira Pinto, que assumiu a presidência da Codevasf em setembro de 2019, teria se colocado "à disposição" de Fernando Bezerra ao tomar posse. Em abril de 2024, ele assinou diretamente um contrato com a Liga Engenharia pela 15ª Superintendência Regional, em Recife, fugindo da hierarquia administrativa normal.

O documento foi co-assinado por Henrique de Assis Coutinho Bernardes, diretor de Desenvolvimento e Infraestrutura da Codevasf, ex-assessor parlamentar de Fernando Bezerra indicado por ele ao cargo. Marcelo deixou a presidência da estatal em junho de 2025. Henrique ainda ocupa o cargo.

O que diz Fernando Bezerra Coelho

A defesa do ex-senador Fernando Bezerra Coelho, representada pelo advogado André Callegari, afirmou não ter obtido acesso integral aos autos, mas, em análise preliminar da decisão, sustentou que todos os recursos provenientes de emendas parlamentares foram corretamente destinados.

A nota também ressaltou a manifestação da PGR contrária às medidas da Polícia Federal e o arquivamento anterior de parte dos fatos no STF, os mesmos pontos destacados pelos filhos do ex-senador.

"A defesa confia que os órgãos beneficiados observaram rigorosamente as melhores práticas de governança e execução dos recursos recebidos. Por meio da decisão, destacamos que alguns fatos já foram objeto de apuração pelo STF com o consequente arquivamento (INQ 4513). A defesa destaca ainda que, segundo consta na decisão do ministro Flávio Dino, a PGR manifestou-se contra as medidas postuladas pela Polícia Federal. Todos os fatos serão devidamente esclarecidos e, ao final, ficará demonstrado que não há qualquer conduta ilícita praticada pelos investigados", afirma o comunicado.

Operação Vassalos

As investigações da Operação Vassalos miram suspeitas envolvendo a destinação de emendas parlamentares e a contratação de empresas ligadas ao grupo político da família Coelho em obras financiadas com recursos federais em Petrolina, no sertão de Pernambuco, incluindo Fernando Bezerra Coelho e os filhos, o deputado federal Fernando Filho e o ex-prefeito da cidade, Miguel Coelho.

As apurações, acolhidas pelo ministro do STF Flávio Dino, têm como foco a atuação na prefeitura de Petrolina e na Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), estatal federal responsável por investimentos em obras na região, envolvendo especialmente a Liga Engenharia Ltda, empresa cujos sócios têm parentesco com a família.

Ao todo, foram expedidos 42 mandados de busca e apreensão pelo STF nos estados de Pernambuco, Bahia, São Paulo, Goiás e Distrito Federal.

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