quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O voto de Minerva na disputa em Pernambuco

 

Foto: Divulgação

Por Edmar Lyra

No alto do camarote do Galo da Madrugada, a governadora Raquel Lyra e o prefeito João Campos sorriram lado a lado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A imagem, cuidadosamente construída, diz muito sobre a largada informal da disputa de outubro. Embora prováveis adversários, ambos fizeram questão de dividir o enquadramento com o líder petista, num gesto que combina deferência institucional e cálculo eleitoral. Em Pernambuco, onde Lula sempre foi mais que um presidente — é uma referência afetiva e política — estar ao seu lado ainda rende dividendos simbólicos. Mas a pergunta que se impõe é: quanto esses dividendos ainda valem?

Os números mostram que o lulismo continua forte, mas já não é hegemônico como foi. Em 2006, contra Geraldo Alckmin, Lula alcançou 83% dos votos válidos no segundo turno em Pernambuco — um patamar quase plebiscitário. Em 2022, venceu com 66,9%, desempenho muito próximo ao de Fernando Haddad em 2018, que obteve 66,5% no estado. O Datafolha registrou recentemente um cenário de 66% a 34% contra Flávio Bolsonaro, indicando estabilidade, mas não expansão. Em termos eleitorais, Lula pode já ter atingido um teto em Pernambuco. Continua majoritário, porém enfrenta um campo oposicionista mais estruturado e resiliente do que há duas décadas.

É justamente esse campo que tende a ser decisivo na disputa estadual. Nas eleições de 2020 e 2022, mesmo minoritário no agregado estadual, o eleitorado de direita foi determinante para que João Campos e Raquel Lyra superassem Marília Arraes no segundo turno. Trata-se de um contingente altamente engajado, com forte densidade na Região Metropolitana do Recife e comportamento eleitoral disciplinado. Em 2022, Jair Bolsonaro obteve 47,5% dos votos válidos no Recife — percentual significativamente superior ao seu desempenho médio em Pernambuco. Esse dado revela que, embora insuficiente para vencer majoritariamente, a direita possui massa crítica capaz de inclinar balanças quando o jogo se afunila.

Diante desse quadro, a estratégia de João Campos e Raquel Lyra passa menos por disputar o lulismo raiz — consolidado e relativamente estável — e mais por dialogar com o eleitor que vota por contraste, por rejeição ou por pragmatismo. Em uma eleição potencialmente apertada, esse contingente poderá optar não pelo candidato com quem mais se identifica, mas por aquele que considera menos distante de suas prioridades. A fotografia no Galo foi um gesto de alinhamento institucional. A campanha, porém, será travada no terreno da moderação estratégica. Quem conseguir construir pontes com esse eleitor de direita metropolitano — sem romper com o campo progressista — largará na frente para ocupar o Palácio do Campo das Princesas em 2026.

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