Presidente se queixa de Magda Chambriard por Petrobras, que só produz 70% do combustível do Brasil e por não ter estoque para situações de crise.
Por Fernando Castilho

Lula da Silva e a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, com braços sobre estoques - Foto Ricardo Stuckert PR
Atenção, ministros, dirigentes de estatais do setor de energia, petróleo e gás, agências reguladoras e órgãos de fiscalização: O presidente Lula, em campanha, não vai assumir qualquer culpa pelo aumento dos preços na bomba e ainda vai reclamar das ações que o seu governo tenta gerenciar.
O presidente já começou a cobrar da presidente da Petrobras pela empresa não ter um estoque regulador, reclamar dos governadores por não aceitarem isentar de ICMS as importações de combustíveis e disse que vai recomprar a antiga refinaria Landulfo Alves, na Bahia, privatizada no governo Bolsonaro.
Enfrentar a crise
Nada disso ajuda a enfrentar a crise agora. Como se sabe, a Petrobras está hoje com uma defasagem no preço do diesel 67% (R$ 2,41 por litro) abaixo da paridade com o exterior. No caso da gasolina, a diferença estava em 52% (R$ 1,30 por litro).
Isso acontece porque, desde a campanha, a ordem de Lula foi desconsiderar a paridade internacional, esticando ao máximo o tempo de reajustes na refinaria e deixando que as importadoras privadas comprassem o que faltasse para atender o mercado, fazendo uma espécie de blend de preços entre o preço defasado da Petrobras e o preço internacional.
Petróleo barato
Enquanto o petróleo estava na faixa de US$ 80 a US$ 75 entre 2023 e 2025, todo mundo ficou feliz, pois a estatal entregava o que refinava e exportava o que podia, mantendo os preços, como foi o caso do diesel , que ficou 305 dias sem reajuste.
O bicho pegou com a guerra de Benjamin Netanyahu, de Israel, que entendeu que era hora de atacar o Irã e convenceu Donald Trump de que seria uma boa, já que matasse os líderes, o povo do Irã iria às ruas, derrubaria o governo dos religiosos e ainda acabaria o programa nuclear.

Presidenta da Petrobras, Magda Chambriard, durante visita às instalações da Regap no Distrito Industrial Paulo Camilo Sul. Betim MG. - Foto: Ricardo Stuckert / PR
Trump e Netanyahu
A História ainda vai registrar se Trump foi na onda de Netanyahu e acreditava na lorota ou se foi forçado a ordenar a operação para que não aparecesse como um desavisado que não sabia o que estava fazendo. Três semanas depois, a Irá sobreviverá e causará um estrago na economia global que ninguém havia previsto. Quando isso acabar, ninguém sabe.
O problema é a leitura de Lula sobre o fato e como ele insiste em gerenciar a crise pensando em sua quarta eleição. Ontem, Lula cobrou do presidente da Petrobras um estoque regulador de combustíveis: “Nós precisamos, ao longo do tempo, construir um estoque regulador para a gente não ser vítima do que está acontecendo hoje.”, disse.
Quanto custa
Alguém disse a Lula o que significa fazer um estoque regulador quando a empresa só entrega 70% do que o mercado consome? E será que ele tem ideia do que é um mês de estoque no caixa da Petrobras? Mas ele cobra sem nenhuma conta e Magda Chambriard é que se vira para ao menos explicar.
Depois que alguém tem que dizer a ele que a Petrobras hoje só entrega 70% do mercado Lula faz um diagnóstico raso, dizendo que isso é culpa de Jair Bolsonaro, que vendeu a Landulfo Alves. Na cabeça dele, se a refinaria estivesse ainda estatal, não haveria esse problema. E concluo dizendo que vai recomprar a empresa hoje nas mãos de um fundo árabe. Pode? Pode. Mas imagina fazer a Petrobras tirar isso do caixa?
Dois negócios
O problema da Petrobras é que ela hoje tem dois negócios que não tinha quando Lula foi presidente. O do refino e o da exportação. Lila achou muito bom o que ela entregou de exportação, mas na primeira crise já detona a presidente da estatal, que foi escolhida por ele para trabalhar evitando ao máximo o impacto dos preços internacionais no mercado interno.
Mas quem conhece Lula sabe que ela atua assim mesmo. Ele tem absoluta certeza de que os governadores devem abrir mão de R$ 3 bilhões de ICMS para reduzir os preços na ponta. Se ele soubesse o estrago que isso faz nos estados do Norte e Nordeste, não deixaria a ideia prosperar, pois uma coisa é o ICMS nos estados do Sul, outra é o ICMS nos estados mais pobres.
Não dá para abrir mão disso. Ai, com a negativa ele diz que é uma atitude dos governadores da oposição.
Gerenciar a crise
O problema do gerenciamento dessa crise é que ela vai impactar mesmo a economia e vai bater no IPCA. E o governo vai ter que buscar novas soluções. Mas o governo não quer gastar e arranjou uma confusão com as empresas que exploram petróleo, criando uma taxação no melhor estilo Donald Trump.
Os estrangeiros estão querendo ir à Justiça, pois querem aproveitar os preços maiores e não estão a fim de entregar parte disso a Lula sob forma de taxação. Desde a virada do mês, que coincidiu com a ofensiva bancada por Donald Trump contra o regime iraniano, o petróleo Brent saltou 49,2%. Imagina perder esse ganho com a tributação decidida na hora.
Tabelando preços
E como tudo o que começa errado prossegue errado, o Ministério de Minas e Energia publicou portaria que fixa os preços de comercialização do óleo diesel com base nas regiões. Fixar preço é tabelamento. Isso nunca funcionou.
Para importadores de petróleo importado adquirido de terceiros, os valores por litro foram definidos em R$ 5,510 no Centro-Oeste, R$ 5,281 no Nordeste, R$ 5,309 no Norte, R$ 5,294 no Sudeste e R$ 5,310 no Sul.
Vai falta na bomba
Já para produtores que utilizam petróleo nacional próprio, os preços são menores: R$ 3.864 no Centro-Oeste, R$ 3.509 no Nordeste, R$ 3.597 no Norte, R$ 3.663 no Sudeste e R$ 3.647 no Sul.
Agora, imagina se com o quadro atual dá para o preço final ser de R$ 5.281 no Nordeste? O de R$ 3.597 se ele comprar da Petrobras. Vai dar problema. Porque tabelar é complicado e porque passamos a correr os riscos de não ter produto na ponta. Imagina se começar a faltar combustível na bomba?
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