sábado, 21 de março de 2026

Governo Lula tenta se aproveitar da crise dos combustíveis para vender discurso de que não tem culpa pelo aumento dos preços na bomba

Presidente se queixa de Magda Chambriard por Petrobras, que só produz 70% do combustível do Brasil e por não ter estoque para situações de crise.

Por Fernando Castilho

Lula da Silva e a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, com braços sobre estoques - Foto Ricardo Stuckert PR

Atenção, ministros, dirigentes de estatais do setor de energia, petróleo e gás, agências reguladoras e órgãos de fiscalização: O presidente Lula, em campanha, não vai assumir qualquer culpa pelo aumento dos preços na bomba e ainda vai reclamar das ações que o seu governo tenta gerenciar.

O presidente já começou a cobrar da presidente da Petrobras pela empresa não ter um estoque regulador, reclamar dos governadores por não aceitarem isentar de ICMS as importações de combustíveis e disse que vai recomprar a antiga refinaria Landulfo Alves, na Bahia, privatizada no governo Bolsonaro.

Enfrentar a crise

Nada disso ajuda a enfrentar a crise agora. Como se sabe, a Petrobras está hoje com uma defasagem no preço do diesel 67% (R$ 2,41 por litro) abaixo da paridade com o exterior. No caso da gasolina, a diferença estava em 52% (R$ 1,30 por litro).

Isso acontece porque, desde a campanha, a ordem de Lula foi desconsiderar a paridade internacional, esticando ao máximo o tempo de reajustes na refinaria e deixando que as importadoras privadas comprassem o que faltasse para atender o mercado, fazendo uma espécie de blend de preços entre o preço defasado da Petrobras e o preço internacional.

Petróleo barato

Enquanto o petróleo estava na faixa de US$ 80 a US$ 75 entre 2023 e 2025, todo mundo ficou feliz, pois a estatal entregava o que refinava e exportava o que podia, mantendo os preços, como foi o caso do diesel , que ficou 305 dias sem reajuste.

O bicho pegou com a guerra de Benjamin Netanyahu, de Israel, que entendeu que era hora de atacar o Irã e convenceu Donald Trump de que seria uma boa, já que matasse os líderes, o povo do Irã iria às ruas, derrubaria o governo dos religiosos e ainda acabaria o programa nuclear.

Presidenta da Petrobras, Magda Chambriard, durante visita às instalações da Regap no Distrito Industrial Paulo Camilo Sul. Betim MG. - Foto: Ricardo Stuckert / PR

Trump e Netanyahu

A História ainda vai registrar se Trump foi na onda de Netanyahu e acreditava na lorota ou se foi forçado a ordenar a operação para que não aparecesse como um desavisado que não sabia o que estava fazendo. Três semanas depois, a Irá sobreviverá e causará um estrago na economia global que ninguém havia previsto. Quando isso acabar, ninguém sabe.

O problema é a leitura de Lula sobre o fato e como ele insiste em gerenciar a crise pensando em sua quarta eleição. Ontem, Lula cobrou do presidente da Petrobras um estoque regulador de combustíveis: “Nós precisamos, ao longo do tempo, construir um estoque regulador para a gente não ser vítima do que está acontecendo hoje.”, disse.

Quanto custa

Alguém disse a Lula o que significa fazer um estoque regulador quando a empresa só entrega 70% do que o mercado consome? E será que ele tem ideia do que é um mês de estoque no caixa da Petrobras? Mas ele cobra sem nenhuma conta e Magda Chambriard é que se vira para ao menos explicar.

Depois que alguém tem que dizer a ele que a Petrobras hoje só entrega 70% do mercado Lula faz um diagnóstico raso, dizendo que isso é culpa de Jair Bolsonaro, que vendeu a Landulfo Alves. Na cabeça dele, se a refinaria estivesse ainda estatal, não haveria esse problema. E concluo dizendo que vai recomprar a empresa hoje nas mãos de um fundo árabe. Pode? Pode. Mas imagina fazer a Petrobras tirar isso do caixa?

Dois negócios

O problema da Petrobras é que ela hoje tem dois negócios que não tinha quando Lula foi presidente. O do refino e o da exportação. Lila achou muito bom o que ela entregou de exportação, mas na primeira crise já detona a presidente da estatal, que foi escolhida por ele para trabalhar evitando ao máximo o impacto dos preços internacionais no mercado interno.

Mas quem conhece Lula sabe que ela atua assim mesmo. Ele tem absoluta certeza de que os governadores devem abrir mão de R$ 3 bilhões de ICMS para reduzir os preços na ponta. Se ele soubesse o estrago que isso faz nos estados do Norte e Nordeste, não deixaria a ideia prosperar, pois uma coisa é o ICMS nos estados do Sul, outra é o ICMS nos estados mais pobres.

Não dá para abrir mão disso. Ai, com a negativa ele diz que é uma atitude dos governadores da oposição.

Gerenciar a crise

O problema do gerenciamento dessa crise é que ela vai impactar mesmo a economia e vai bater no IPCA. E o governo vai ter que buscar novas soluções. Mas o governo não quer gastar e arranjou uma confusão com as empresas que exploram petróleo, criando uma taxação no melhor estilo Donald Trump.

Os estrangeiros estão querendo ir à Justiça, pois querem aproveitar os preços maiores e não estão a fim de entregar parte disso a Lula sob forma de taxação. Desde a virada do mês, que coincidiu com a ofensiva bancada por Donald Trump contra o regime iraniano, o petróleo Brent saltou 49,2%. Imagina perder esse ganho com a tributação decidida na hora.

Tabelando preços

E como tudo o que começa errado prossegue errado, o Ministério de Minas e Energia publicou portaria que fixa os preços de comercialização do óleo diesel com base nas regiões. Fixar preço é tabelamento. Isso nunca funcionou.

Para importadores de petróleo importado adquirido de terceiros, os valores por litro foram definidos em R$ 5,510 no Centro-Oeste, R$ 5,281 no Nordeste, R$ 5,309 no Norte, R$ 5,294 no Sudeste e R$ 5,310 no Sul.

Vai falta na bomba

Já para produtores que utilizam petróleo nacional próprio, os preços são menores: R$ 3.864 no Centro-Oeste, R$ 3.509 no Nordeste, R$ 3.597 no Norte, R$ 3.663 no Sudeste e R$ 3.647 no Sul.

Agora, imagina se com o quadro atual dá para o preço final ser de R$ 5.281 no Nordeste? O de R$ 3.597 se ele comprar da Petrobras. Vai dar problema. Porque tabelar é complicado e porque passamos a correr os riscos de não ter produto na ponta. Imagina se começar a faltar combustível na bomba?

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