domingo, 30 de agosto de 2020

O bloco de sujos dos militantes e meliantes


Weiller Diniz*

O Rio de Janeiro é o berço do carnaval. O “vereador federal” Carlos Bolsonaro, a quem se atribui a afinação dos instrumentos do clã nas redes sociais, postou uma crítica profética: “Todo mundo próximo do Lula é envolvido em corrupção, menos ele. Incrível como esse homem consegue ser puro no meio de tanto familiar ruim!”. Antes do desfile do segundo ano, várias alas do capitão são investigadas, denunciadas ou suspeitas de uma bateria de crimes: Os filhos, a mulher, ex-mulher, ministros, o PSL pelo qual foi eleito, órgãos públicos, amigos, vizinhos, mentores e os aliados de outras agremiações políticas.
Na comissão de frente brilha Flávio Bolsonaro, ensurdecido pelo bumbo de Fabrício Queiroz. O MP do Rio de Janeiro exibiu uma caudalosa ciranda financeira, transações imobiliárias suspeitas, saques e depósitos presenciais e uma fortuna de 7 milhões evoluindo entre CNPJs, CPFs e pagamentos de dívidas pessoais por terceiros. A escola rachadinha contou com muitos figurantes: Parentes do próprio Queiroz e de outro puxador da milícia, Adriano da Nóbrega, condecorado por Flávio Bolsonaro na cadeia e morto após se tornar foragido. Pelo ritmo do ensaio, o senador pode não ter fôlego para chegar até a dispersão.
Quatro ex-assessores do vereador Carlos Bolsonaro, alvos de uma investigação, tiveram os sigilos bancário e fiscal quebrados na apuração sobre a suposta “rachadinha” no gabinete de seu irmão. Já Eduardo Bolsonaro tem representações no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados e um de seus assessores está na mira das apurações sobre fake news. O vizinho, Ronnie Lessa, está preso pela morte da vereadora Marielle Franco. Na casa de um amigo de Lessa foram encontrados 117 fuzis.
Wiston Witzel, governador carioca, desfilou ao lado de Flávio Bolsonaro na campanha. Ambos entoaram o mesmo enredo contra a velha política e pela moralização. A justiça, atravessando a lei, afastou o governo do camarote das laranjeiras por corrupção, prendeu o presidente da escola, pastor Everaldo e outros 17. A primeira porta-bandeira, Helena Witzel, também é investigada e a escola PSC, aliada de Bolsonaro, correr o risco de rebaixamento. Witzel também responde a um processo de impeachment.
Também no Rio, Rogéria Bolsonaro, a primeira mulher de Jair Bolsonaro e mãe de Flávio, Eduardo e Carlos, comprou um apartamento na Zona Norte do Rio por R$ 95 mil em 1996. Em valores atualizados equivaleria a R$ 621 mil. O enredo mostra que o preço foi pago em moeda corrente. Na época, Rogéria era casada em regime de comunhão parcial de bens com o então deputado federal Jair Bolsonaro. Os dois só começaram a brincar separados dois anos depois, em 1998. Desfilar com pacotes de dinheiro vivo no Rio de Janeiro é a perfeita carnavalização.
Os parentes de Michelle Bolsonaro brincam no unidos da cela. A avó, falecida, foi presa por tráfico. A mãe respondeu por falsificação de documentos e o tio foi detido sob acusação de integrar uma milícia que vendia lotes ilegais em Brasília. Michele Bolsonaro é madrinha da bateria. Recebeu R$ 89 mil depositados pelo mestre sala e porta bandeira da família Queiroz. Na primeira versão o capitão atribuiu a grana um empréstimo. Quando perguntado sobre o patrocínio ficou transtornado, tropeçou na avenida e ameaçou agredir um jornalista: “Minha vontade é encher tua boca na porrada. Seu safado”. Virou um refrão nacional do deboche.
Frederick Wassef é outro folião, fantasiado de anjo, com trânsito livre na concentração. Era advogado de Flávio Bolsonaro e do próprio capitão. A explicação por ter asilado Fabrício Queiroz em sua casa, sem a ciência do clã Bolsonaro, não empolgou. Wassef é investigado pelo MP por receber recursos da ex-mulher, Cristina Bonner, que tem contratos milionários com o governo federal. Também é observado pelos jurados do TCU pela mesma razão. Os contratos estão sendo auditados em 4 processos sob suspeita de tráfico de influência. Generoso pagou o médico de Queiroz.
A ala mais prestigiada hoje é a velha guarda do centrão. Perto de 60 deputados do grupo têm problemas legais. Destaques no novo enredo são Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson. Ex-momo carioca Jefferson foi condenado a 7 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. Cumpriu pouco mais de 1 ano. Trocou a fantasia do presidiário pela de golpista. Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão a 7 anos, tenta ficar escondido embaixo dos carros alegóricos. Bolsonaro já desfilou com 9 estandartes diferentes do centrão. Sente-se em casa. Seus filhos já tiveram boquinhas por lá em outros carnavais.
O cordão enxotado do barracão após a vitória do centrão também tem pendências com a lei. O STF investiga a disseminação de fake News. 29 bolsonaristas foram alvos de busca e apreensão. No inquérito sobre atos golpistas, outros 21 aliados do capitão tiveram os sigilos quebrados. Entre eles o senador Arolde de Oliveira e dez deputados, como Carla Zambelli, Bia Kicis, Daniel Silveira e Otoni de Paula. Sarah Giromini foi presa a e a deputada Flordelis, terrivelmente evangélica e acusada de mandar matar o marido, são outros perfis criminosos que rondam o salão.
O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi denunciado pelo laranjal do PSL. O partido que elegeu Bolsonaro é investigado em outros estados. Abraham Weintraub tem processo e fugiu. Onyx Lorenzoni busca uma alegoria para escapar do crime confesso de caixa 2. Eleitos na pseudorenovação em 2018, contra a velha política, os governadores de Santa Catarina e Amazonas são alvos de pedidos de impeachment por suspeitas de irregularidades. Foram aliados de Bolsonaro.
Até camarotes públicos estão desafinando. O STF rebaixou a ABIN e o Ministério da Justiça por atravessarem o samba democrático. A Abin, através de um decreto presidencial, queria ter acesso a dados sigilosos dos cidadãos para bisbilhotar. A ministra Carmen Lúcia disse que arapongagem era crime. Pelo bis de 9×1, o STF também eliminou o desafinado MJ na produção de dossiês contra adversários, denominados de “antifascistas”.
Steve Bannon, mentor da direita mundial, foi preso sob a acusação de desviar dinheiro de uma campanha de apoio à construção de um muro entre os Estados Unidos e o México. Bannon foi o estrategista campanha de Donald Trump. É o criador do grupo The Movement, que tem representantes no mundo todo. Na América Latina o líder do movimento é Eduardo Bolsonaro.
O bloco de sujos é extenso. Em tese, envolve uma avenida de crimes, como corrupção passiva, ativa, peculato, formação de quadrilha, arapongagem, lavagem de dinheiro, fraudes, contrabando de armas e homicídio, no caso Marielle Franco, além dos inquéritos em andamento no STF, TSE e os crimes de responsabilidade empoçados na Câmara. Pesam contra o capitão representações no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.
Por aqui fez apologia de ditadores, da tortura, prescreveu medicamentos sem habilitação e atentou contra a saúde pública. Em tese exercício ilegal da medicina, charlatanismo, curandeirismo e incentivou a invasão de hospitais. Mesmo em desuso, a vadiagem continua sendo delito. Bolsonaro e as emas do Alvorada são uma ilha de lisura, cercados de crimes e cloroquina por todos os lados. As emas não precisam de advogados. Aberta a tampa da fossa nova, o que fazem os militares entre esses militantes e meliantes?
*Jornalista. Artigo escrito originalmente para o site Os divergentes.

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