sábado, 24 de janeiro de 2026

Morre, ao 57 anos, o empresário Constantino Júnior, um dos fundadores da Gol

Ele estava internado em São Paulo e lutava contra um câncer há alguns anos

Por O Globo — Rio

O empresário Constantino Júnior, cofundador da Gol Linhas Aéreas, em 2011 — Foto: Michel Filho/Agência O Globo

O empresário Constantino Júnior, de 57 anos, morreu neste sábado em São Paulo depois de uma batalha de alguns anos contra um câncer. Cofundador e ex-CEO da Gol Linhas Aéreas Inteligentes, exercia o cargo de presidente do Conselho de Administração da companhia desde 6 de julho de 2012. Ele também era presidente executivo do Grupo Abra, holding que controla Gol e Avianca, e membro do conselho desta última.

Filho do empresário Nenê Constantino, ele foi fundamental na revolução do setor aéreo brasileiro com um modelo de baixo custo.

Fascinado por mecânica, esportes e velocidade, tinha duas paixões: o automobilismo e a aviação. Cursou Administração de Empresas pela Universidade do Distrito Federal e participou do Programa Executivo de Gestão Corporativa da Association for Overseas Technical Scholarships.

O empresário Constantino Júnior, cofundador da Gol Linhas Aéreas, em 2011 — Foto: Michel Filho/Agência O Globo

Aprendeu a pilotar aviões aos 15 anos e, em 2001, ao lado dos irmãos Joaquim, Ricardo e Henrique, fundou a GOL Linhas Aéreas Inteligentes, a primeira low cost (modelo de negócio com passagens aéreas de baixo custo e serviço mais enxuto) do mercado brasileiro.

Constantino Júnior se tornou o primeiro CEO da empresa, com um estilo de gestão marcante e ousado. Com apenas três anos de operação, em junho de 2004, a empresa estreou na Bolsa de Valores de São Paulo (B3) e na Bolsa de Nova York (NYSE). Mais adiante, ele conduziu a expansão da empresa por meio de aquisições como as da Varig e da Webjet.

À frente da Gol, ele liderou o processo de redução do preço de passagens aéreas no país, contribuindo para a ampliação do acesso ao transporte aéreo, com milhões de brasileiros viajando de avião pela primeira vez nas duas últimas década.

Também enfrentou momentos delicados, como o acidente do voo Gol 1907, em 2006, quando o Boeing 737-800 da companhia colidiu parte de uma asa com um jato executivo Embraer Legacy 600 em pleno ar enquanto sobrevoava o Mato Grosso. A aeronave se desestabilizou e caiu, matando todos os 154 passageiros e tripulantes a bordo.

Mais recentemente, a Gol passou por uma recuperação judicial para reestruturar seu alto endividamento, agravado pelo impacto da pandemia de 2020. Chegou a negociar uma fusão com a Azul, mas o plano foi abandonado em setembro do ano passado.

O principal salto da Gol foi em 2007, quando Constantino liderou a compra da Varig, que não conseguiu se recuperar de uma emblemática recuperação judicial. A low cost consolidou seu crescimento e, em 2012, assumiu a liderança do mercado em algumas das principais rotas do país com a aquisição da Webjet. Ampliou sua malha e a frota, composta por jatos Boeing 737, modelos 700 e 800.

A Gol logo se transformou em uma das principais do setor no país, chegando a deter, em dezembro de 2013, 37,3% do mercado de aviação civil doméstico, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Atualmente, a companhia tem 32%, atrás da Latam e à frente da Azul.

Ao longo dos anos, a Gol estabeleceu alianças com companhias aéreas internacionais para ampliar a oferta de rotas aos clientes, com novos destinos no exterior. Hoje a empresa possui contratos de codeshare com alguns dos principais players da aviação global como Delta Air Lines, Air France, KLM, Aerolineas Argentinas, TAP, Qatar, Alitalia, Iberia e Copa Airlines.

Paixão pelo automobilismo

Fora da aviação, Constantino manteve ligação constante com o automobilismo. Competiu como piloto na Porsche GT3 Cup Challenge Brasil, onde foi vice-campeão em 2008 e campeão em 2011.

Ao longo da carreira, recebeu diversos prêmios empresariais nacionais e internacionais, incluindo reconhecimentos por inovação, liderança e empreendedorismo.

'Visão estratégica e humanidade'

Além da atuação na Gol, Constantino era membro do Conselho de Administração e um dos fundadores do Grupo Abra, holding que reuniu Gol e Avianca, com participações em outras companhias da América do Sul.

Em nota, a Gol manifestou "profundo pesar pelo falecimento de seu fundador, Constantino Júnior, e se solidariza com os familiares e amigos, expressando seus sentimentos e reconhecendo seu legado".

"Sua liderança, sua visão estratégica e, sobretudo, seu jeito simples, humano, inteligente e próximo deixaram marcas profundas em nossa cultura. Os princípios estabelecidos por seu fundador fizeram a companhia crescer e hoje fazer parte de um grupo internacional. Eles seguem vivos na GOL e continuam transformando a aviação no Brasil".

O Grupo Abra, em comunicado, afirmou que "Constantino foi um empreendedor e um verdadeiro visionário, guiado por um propósito claro: tornar o transporte aéreo acessível a todos. Sob sua liderança, a GOL tornou-se a primeira companhia aérea do Brasil a democratizar o transporte aéreo, impulsionando o desenvolvimento e o crescimento em todo o país, e o Abra Group foi criado para expandir esse propósito por toda a América Latina".

O ministro Silvio Costa Filho, chefe da pasta de Portos e Aeroportos, afirmou em publicação nas redes sociais que recebeu a notícia da morte de Constantino Júnior com muita tristeza:

"Sua trajetória à frente da GOL teve um papel decisivo no fortalecimento da aviação brasileira, ampliando conexões, oportunidades e o desenvolvimento do setor no país. Deixa um legado importante e duradouro. Meus sentimentos à família, amigos e colegas".

Concorrentes lamentam

O texto também diz que "o Abra continuará seu legado, trabalhando por um ambiente mais equilibrado na América Latina, fortalecendo a conectividade, aprimorando a forma como a região voa e promovendo maior acesso ao transporte aéreo para todos".

Já a Azul Linhas Aéreas disse em nota que a aviação brasileira "perde uma de suas figuras mais relevantes" com a morte do empresário.

"Empreendedor visionário na fundação da GOL, teve papel decisivo na transformação da aviação no Brasil, ampliando o acesso ao transporte aéreo e deixando um legado que seguirá influenciando nossa indústria por muitos anos. Em nome de todos seus tripulantes, a Azul se solidariza aos sentimentos da família, dos amigos e de todos que fizeram parte de sua marcante trajetória", diz o comunicado da companhia aérea.

A Latam Airlines afirmou lamentar profundamente o falecimento de Constantino Júnior, a quem chamou de "um dos grandes responsáveis por transformar o mercado da aviação no Brasil".

"À frente da fundação da Gol, introduziu um modelo de negócios inovador, que ampliou o acesso ao transporte aéreo, estimulou a concorrência e contribuiu de maneira decisiva para o crescimento e a modernização do setor no país. Sua capacidade de inovar, aliada à coragem de desafiar paradigmas estabelecidos, deixou um legado duradouro para a indústria e para milhões de brasileiros que passaram a voar", afirmou a Latam em comunicado.

A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) também manifestou "profundo pesar" pela morte de Constantino Júnior, que era membro titular do Conselho Deliberativo da entidade.

"Empreendedor visionário, Constantino foi um dos grandes responsáveis por redefinir o transporte aéreo no Brasil. À frente da criação da GOL, tornou-se a imagem de um novo modelo de companhia aérea no país. Como legado, Constantino deixa inestimável contribuição para a democratização da aviação comercial brasileira", diz o texto.

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