domingo, 25 de janeiro de 2026

Lobistas ligados à família de Lula frequentaram o Planalto com despesas pagas por empresário


Lobistas ligados à família de Lula visitaram Planalto

Por Fabio Serapião e Julia Affonso, do UOL – Dois lobistas ligados à família do presidente Lula (PT) frequentaram o Palácio do Planalto enquanto tinham despesas custeadas por um empresário que queria abrir portas em Brasília. A sede do governo federal registrou entradas de ambos entre 2023 e 2025.

Os nomes de Kalil Bittar —amigo da família Lula— e de Carla Ariane Trindade —ex-nora do presidente— não constam de agendas de autoridades que trabalham no Planalto, publicadas pela CGU (Controladoria-Geral da União). As visitas estão registradas apenas na portaria do palácio.

O UOL cruzou entradas na sede do governo com registros de viagens a Brasília e reuniões públicas, a partir do início do terceiro mandato do petista, e identificou que os lobistas estiveram dez vezes no palácio. Três têm relação direta com o empresário e uma está indiretamente ligada a ele.

Em 19 de dezembro de 2023, Kalil Bittar chegou ao Planalto às 10h21, mesmo horário do então secretário de Educação de Hortolândia (SP), Fernando Gomes de Moraes.

Ao lado deles, estava o empresário André Gonçalves Mariano, dono da Life Educacional, que mantinha contratos milionários com a prefeitura paulista.

Os três entraram na sede do governo cerca de 25 minutos antes de um encontro de Moraes com o chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, no 3º andar do palácio.

A agenda pública do auxiliar do presidente registrou uma “reunião executiva” a sós, de meia hora, entre ele e o secretário.

O dia continuou na sede do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Moraes e Mariano tiveram uma reunião com a presidente do órgão, Fernanda Pacobahyba, sobre “assuntos da pasta”.

Um inquérito da PF (Polícia Federal), que apura superfaturamento em contratos de Mariano com prefeituras paulistas, indica que o empresário teria bancado a passagem do secretário de Hortolândia, de Campinas para Brasília. Ambos viajaram em poltronas vizinhas.

Dois dias depois da visita ao Planalto, o empresário pagou R$ 30 mil a Kalil Bittar. A PF identificou, na agenda de Mariano, o nome “Kalil” e “restabelecer pgto” em 19 de dezembro de 2023, dia em que foram ao Planalto.

Secretário de Hortolândia e empresários visitam o Planalto

“Brother, eu só dei aquela interrupção temporária, porque eu estava apertado, cara, todo mundo estava sem, sem receber de ninguém”, disse Mariano, em áudio enviado ao lobista em 21 de dezembro de 2023.

“Nossa vida… que sufoco que foi esse ano, cobertor apertado de todos, apertou a gente aqui, mas aí, um outro já aliviou um pouquinho e aí já deu pra voltar a rotina, tá? Conte sempre.”

Segundo a investigação, a qual a reportagem teve acesso, Mariano cedeu uma BMW e pagou um total de R$ 210 mil em benefício do lobista entre 2022 e 2024. Os valores incluem repasses à ex-mulher de Bittar.

As transferências tiveram início em outubro de 2022, dois dias antes do segundo turno da eleição vencida pelo petista. Conversas obtidas pela PF, meses antes da primeira transferência, mostram que o secretário de Hortolândia mencionou uma “possível influência política” caso Lula vencesse as eleições.

“Acho legal o Kalil porque fica uma porta médio longo prazo se o Lula for presidente. O Kalil tem esse espaço que é dele, nem ninguém tira dele esse espaço”, disse Moraes ao empresário.

“Uma vez que o Lula ganha, esse cara, é, certamente vai estar ali no meio do poder, aí a galera vai atrás dele.”

Em novembro do ano passado, a Polícia Federal chegou a prender Fernando de Moraes, André Mariano, o vice-prefeito de Hortolândia, Cafu Cesar (PSB), e outros investigados no inquérito. Um endereço de Bittar, em Brasília, foi alvo de busca e apreensão —o lobista estava em Portugal.

Os investigadores apontaram no inquérito que Mariano “claramente fortalece seu lobby em Brasília, por intermédio de Carla, Cafu, Fernando e Kalil”. “É provável que essa atuação junto ao governo central tenha viabilizado os diversos pagamentos feitos à Life pelo município de Hortolândia”, escreveu a PF.

Kalil é irmão de Fernando Bittar – dono formal do sítio de Atibaia —e filho do ex-prefeito de Campinas Jacó Bittar. Sindicalista, um dos fundadores do PT e grande amigo do presidente, Jacó morreu em 2022.

Em nota de pesar, naquele ano, Lula lamentou a morte e lembrou a “convivência querida e carinhosa” e a “grande amizade entre nossas famílias e filhos”. Kalil manteve sociedade empresarial com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ao menos até 2023, segundo registros da Junta Comercial de São Paulo.


A Secretaria de Comunicação do Palácio do Planalto afirmou ao UOL que é dever institucional dos servidores federais receberem, “nos termos da legislação e do código de ética funcional, representantes de outros entes públicos, do setor produtivo e da sociedade civil organizada”.

O advogado de Kalil Bittar confirmou as idas à sede do governo, mas nenhuma “para fins de gestão negocial ou de interesses comerciais”.

A defesa de Carla Trindade disse que ela trabalhava no Departamento de Almoxarifado e Patrimônio, da prefeitura de Hortolândia, e foi ao Planalto para visitas de cortesia. Ambos negaram que os clientes sejam lobistas.

O defensor de André Mariano declarou que se manifestará no processo. O escritório que representa Fernando de Moraes afirmou que ele visitou informalmente Marcola, de quem é amigo, “sem qualquer pauta institucional”.
A conexão entre os lobistas

O UOL identificou que Bittar também entrou no Planalto com o diretor de uma empresa de tecnologia para a qual trabalhou um dos netos de Lula, filho de Carla Trindade. O executivo visitou a sede em 2024 e no ano passado —em uma das oportunidades, estava com o neto do presidente.

A defesa do empresário afirmou que ele esteve rapidamente no palácio para tirar foto com o presidente e de outra vez apenas acompanhou Bittar, de quem aluga uma casa em Brasília.

Carla e Kalil são amigos há décadas. A PF identificou, por exemplo, o email de Bittar no cadastro de uma passagem aérea dela para Brasília em 30 de janeiro de 2024. Na ocasião, a lobista embarcou para a capital no mesmo voo do vice-prefeito de Hortolândia.

No dia seguinte, Cafu Cesar esteve no Planalto para uma reunião com Marcola ao meio-dia e se encontrou com Lula, com quem tirou uma foto. A lobista entrou no 

Planalto às 15h06



André Mariano (à esq), Kalil Bittar (ao centro) e um empresário

A PF analisou a agenda de compromissos de Mariano, mantida virtualmente, e identificou a primeira menção ao nome de Carla Trindade em 24 de janeiro daquele ano. Segundo os investigadores, o contato entre ambos “se deu por intermédio de Fernando, secretário de Hortolândia, e Kalil”.

“André Mariano custeou viagens para Carla Ariane Trindade para Brasília, tendo sido localizados, nos dados associados ao email de André Mariano, reservas de voos e hotéis em nome desta investigada, de Fernando Moraes e de outras pessoas”, registrou o inquérito.

O empresário tinha o costume de anotar as próprias atividades de forma minuciosa. Em 29 de janeiro de 2024, escreveu, por exemplo: “agendar café com a nora e atualizar BSB”, referindo-se à Carla.

A investigação da PF descobriu que a ex-nora de Lula viajou outras duas vezes a Brasília com passagens vinculadas a André Mariano. Em ambas, ela esteve na sede do governo federal.

“No dia 14/05/2024, Carla e Mariano embarcam juntos sob o mesmo localizador da empresa aérea Azul com destino a Brasília/DF. Ademais, os dados da compra da passagem são vinculados a Mariano”, apontou o inquérito.

Na ocasião, a lobista entrou no Planalto às 10:01. O empresário, às 17:40, segundo os registros da portaria.

Em 3 de dezembro de 2024, Carla voou a Brasília com passagens que continham dados cadastrais de Mariano e na companhia de Fernando de Moraes. A lobista entrou no Planalto às 9h.

A PF cumpriu um mandado de busca e apreensão contra Carla na operação. O responsável por abrir a porta para os policiais foi um dos filhos de Lula, Marcos Cláudio Lula da Silva, ex-marido dela.

Segundo a investigação, a ex-nora do presidente atuou para liberar, no Ministério da Educação, valores para uma empresa suspeita de fraudes em licitações e desvio de dinheiro público.

A prefeitura de Hortolândia pagou R$ 33 milhões para Life Educacional, empresa de Mariano, entre 2022 e 2025, segundo o TCE-SP (Tribunal de Contas de São Paulo).

Com endereço em Piracicaba, interior paulista, a empresa fornecia livros e kits educacionais com sobrepreço ao município, apontou a investigação.

De acordo com a PF, o empresário retirava dinheiro vivo com doleiros para pagar lobistas e servidores públicos ao menos desde 2021.
Lula e Cafu Cesar, candidato a vice-prefeito de Hortolândia (SP)

Os investigadores identificaram, por exemplo, na agenda de Mariano, a anotação “CAFU: 150”, que seria um pagamento de R$ 150 mil ao vice-prefeito.

Como revelou o UOL, Cafu controlava Hortolândia politicamente. Cabia a ele articular pedidos de recursos e interesses da cidade junto ao governo Lula. Uma das solicitações rendeu uma liberação de verba do Ministério da Saúde em outubro de 2023.

“Queremos agradecer ao chefe de gabinete do presidente Lula, Marco Aurélio Marcola, que também pegou a cidade de Hortolândia como prioridade”, disse Cafu, na ocasião, em agradecimento a R$ 50 milhões da Saúde, destravados pelo auxiliar do petista.

Registros da portaria do Planalto mostram que o vice-prefeito continuou frequentando o Planalto até julho do ano passado. Cafu é ex-dirigente estadual do PT, em SP, e trabalhou para o ex-ministro José Dirceu.

No fim do ano passado, o Ministério Público Federal determinou à PF a abertura de 25 novos inquéritos decorrentes da operação. Um deles pretende apurar os crimes de organização criminosa e tráfico de influência, envolvendo Mariano, Bittar, Carla e outros dois alvos.

O objetivo é investigar a participação deles no esquema que beneficiou a Life “em órgãos públicos municipais (prefeituras) e federais (especialmente o MEC e o FNDE)”, registrou a Procuradoria.

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