Transformar a eleição pernambucana em guerra de dossiês empobrece o debate e adia soluções para problemas acumulados há décadas no estado.
Por Igor Maciel

João Campos e Raquel Lyra estiveram na Missa do Vaqueiro - Lula Carneiro e Janaína Pepeu/Divulgação
A eleição de 2026 em Pernambuco corre o risco de começar pelo lugar errado. Em vez de discutir que estado queremos construir na próxima década, o debate já escorrega para o terreno mais pobre possível.
Acusações, pedidos de impeachment, dossiês reciclados, insinuações morais. A disputa pode deixar de ser sobre projetos e virar uma competição de apontar o dedo por qualquer motivo. O estado vai ganhar muito se a eleição for sobre quem pode se dedicar mais a Pernambuco, mas será um desastre se ficar nas acusações.
É como se escolher um governador fosse apenas evitar o pior currículo, e não selecionar o gestor mais capaz para comandar uma máquina pública que movimenta mais de R$ 60 bilhões por ano.Pernambuco já perdeu tempo demais nas últimas duas décadas, não pode se dar ao luxo de repetir esse ambiente.
Gestão
O primeiro requisito continua sendo a integridade. Não existe margem para relativizar caráter quando se trata de administrar o cofre de um estado pobre. Sim, porque Pernambuco é um estado pobre e que precisa ter gestores comprometidos e responsáveis com os gastos.
Quem assina contratos bilionários, autoriza licitações e decide prioridades orçamentárias precisa ter vida pública acima de qualquer suspeita. E não basta ser honesto, é preciso parecer honesto o tempo inteiro. Cada real mal aplicado pesa mais aqui do que em estados mais ricos. O dinheiro público em Pernambuco é escasso, suado, disputado por hospitais, escolas, estradas e segurança. Não pode ser usado para suprir projetos pessoais de poder.
Capacidade
Mas governar não é apenas não roubar, é saber investir também. O orçamento anual parece grande no papel, mas se dilui rapidamente entre folha de pagamento e despesas obrigatórias.
O espaço para políticas estruturantes é limitado. Por isso, a diferença entre gastar e investir define o sucesso ou o fracasso de uma gestão. Gasto eleitoreiro rende manchete e palanque. Investimento inteligente muda a vida das pessoas ao longo do tempo. A campanha precisa ser sobre quem se enquadra em cada um desses estilos.
Discurso
O problema é que o debate público dos últimos dias andou distante dessa discussão básica. Em vez de perguntar quem tem plano para infraestrutura, para qualificação profissional, para modernizar a máquina e aumentar eficiência, a campanha começou a se concentrar em ataques pessoais.
Histórico
Essa lógica não é nova. Pernambuco já viveu momentos em que o governo foi usado como vitrine para projetos nacionais, como trampolim para projetos pessoais maiores. E um grande passivo foi deixado por aqui para que os pernambucanos pagassem a conta.
Priorizaram-se agendas eleitorais, não agendas administrativas. Contraíram-se dívidas, prometeram-se obras grandiosas, adiou-se o ajuste das contas. O boleto sempre voltou depois, na forma de serviços precários e oportunidades perdidas.
Escolha
Se os lados dessa campanha começarem a percorrer o caminho dos ataques e deixarem de lado a comparação de propostas, corremos o risco de passar mais quatro anos com o estado sendo coadjuvante de um espetáculo em que é ocupa o papel de maior investidor. A pergunta de 2026 em Pernambuco é sobre quem consegue fazer mais, com um orçamento limitado de R$ 60 bilhões ao ano, sem corrupção, mas também sem desperdício e sem promessas vazias. Todo o resto é distração.
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