Por Edmar Lyra
Em 2022, muitos institutos de pesquisa mostraram vantagens amplas de Lula tanto no primeiro quanto no segundo turno, gerando uma percepção de que a disputa seria menos apertada do que acabou sendo nas urnas. As médias das pesquisas antes da votação sugeriam diferenças superiores a 7 pontos no primeiro turno e 3 a 8 pontos no segundo turno em cenários simulados, enquanto o resultado oficial ficou bem mais próximo, com Lula vencendo por cerca de 5,2 pontos no primeiro turno e cerca de 1,8 ponto no segundo turno. Isso expôs limitações nos modelos de pesquisa na captura de dinâmica de indecisos, rejeições e mudanças de última hora — um alerta claro de que tentativas de “prever” eleições com margens amplas podem iludir tanto analistas quanto eleitores.
Quatro anos depois, as pesquisas mais recentes da Genial/Quaest apontam novamente Lula como líder isolado do primeiro turno em 2026, com cerca de 36% das intenções de voto contra aproximadamente 23% de Flávio Bolsonaro, segundo o levantamento de janeiro. Esses números, no entanto, não resumem todo o quadro: ao somar os percentuais de outras candidaturas de oposição — como Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior e outros — a coalizão fora do PT pode ultrapassar em conjunto os índices de Lula no primeiro turno, sugerindo que sua liderança isolada não representa necessariamente uma maioria consolidada. Tal fragmentação eleitoral é típica em sistemas pluripartidários e reflete tanto a dificuldade de transferir votos de forma homogênea quanto a resistência de parte do eleitorado em se agrupar em torno de um único nome opositor.
A candidatura de Flávio Bolsonaro, embora ainda atrás de Lula em todas as simulações, aparece como o principal nome da direita, com potencial de crescimento se conseguir reduzir sua rejeição — que permanece elevada em relação ao eleitorado geral. Isso significa que, apesar de Flávio herdar parte do capital político do pai, ele também carrega consigo os custos associados à imagem do bolsonarismo tradicional, fazendo com que seu teto eleitoral seja limitado. Em um eventual segundo turno, as simulações mais recentes ainda mostram Lula vencendo Flávio, mas por margens menores do que aquelas apresentadas por pesquisas otimistas em 2022 — um sinal de que a oposição não está isolada e pode forçar uma disputa mais competitiva.
O principal desafio para analistas e para o próprio eleitorado é entender que a soma das intenções de voto de diferentes candidatos de oposição pode ser superior à de Lula, mas essa soma não se traduz automaticamente em vitória ou transferência linear de votos em um eventual segundo turno. Em 2022, pesquisas falharam em captar como rejeições, indecisos e movimentos de última hora moldariam o resultado real; em 2026, um cenário fragmentado e com figuras como Flávio Bolsonaro competindo pela liderança oposicionista exige cautela na leitura dos números. Os institutos têm um papel crucial em calibrar melhor esses fatores para além de percentuais isolados — afinal, em um ambiente político cada vez mais volátil, qualquer vantagem ampla identificada em levantamentos pode se estreitar rapidamente à medida que a eleição se aproxima.

Nenhum comentário:
Postar um comentário